Precipícios
Espelhos para a alma

É muito importante tirar vantagem sem trapacear a vida. Em verdade, melhor ainda é quando a fazemos ensinar a morte. Imagine estar à beira de um abismo existencial, privado do que lhe resta de sanidade, subjulgado pela cegueira do desespero e ainda assim encontrar uma saída. Mas que saída? Eu vos digo: O grito. Berrar ao máximo, até ressoarmos distâncias que possam alcançar a mão amiga, disposta a recuar nossa inconseqüente ofensiva. É aproveitar o eco que os precipícios nos ofecerecem, estar de acordo com o aprendizado embora a dor esmague o peito e um vazio inexplicável envolva o nosso espírito.
O princípio de enfrentar a crise pelo abismo é aprender profundamente com a tortuosa situação e, ao contrário das quedas da vida que nos ensinam a remover as pedras, aproveitarmos a oportunidade de uma assimilação sem necessariamente mergulhar em um desastroso — e irreversível — hiato existencial. As quedas são importantes, nos guiam e trazem aprendizado, mas não a sabedoria. Enfrentar o abismo que revela nossas mais delicadas fraquezas é para poucos e não há a possibilidade em ser feito apenas por um único e exclusivo ser. É preciso chegar em sua margem e gritar. No fim, aprender a remover as pedras do caminho e a gritar pela mão amiga quando a vida começa a ser questionada é a união perfeita em direção à reforma íntima.
Então, se você está lendo este artigo e passando pelo mesmo dilema, não tenha medo do abismo: encare-o por muito tempo e ele irá encará-lo de volta. Faça-o morder a isca, busque ajuda no grito e reflita depois. Reveja a sua crise, especialmente os gatilhos. E grite! Não caia na ladaia de que “sua mente está sob seu total controle” — ela não está. Piegas? Estou vivo por ter gritado e não hesitarei novamente em gritar para que alguém me socorra. Comece a tornar esses exemplos de egoísmos distorcidos, darwinistas e completamente equivocados algo alheio a sua vida.
E mais, existe uma outra grande vantagem de estar prestes a despencar de um precipício: você ainda não pulou. Ao contrário das quedas da vida, inevitáveis por excelência, o abismo possui uma certa distância, uma falha em sua composição. É o momento ideal para aproveitar aquele intervalo vital e refletir sobre coisas que podem alimentar a sua alma ou pedir socorro ao gritar (com direito a ressonância dos ecos). A alma necessita de precipícios, de ser afrontada. Estes, unidos às quedas da vida, nos fazem mudar não só o corpo e a mente, mas a compreender nosso princípio vital.
Eu entendo se perguntar sobre a recorrência da crise. Sim, ela vai ocorrer novamente, tenha certeza, faz parte do nosso caminho, porém, cada vez mais leve e contornável.
Muito obrigado.