Setembro Amarelo

Muito se fala sobre Setembro Amarelo, sobre a preservação da vida, prevenção de suicídios e muita gente se diz apoiadora da causa, se diz combatente, se DIZ empático, né? É uma chuva de postagens e firulas.
Mas honestamente, eu vejo de camarote que é tudo muito florido e artificial, pra não dizer: falso. Lidar com a ansiedade, por exemplo, é PIOR que a morte. E ok, espiritualizados, eu sei de toda a história e verdade sobre o “depois”, mas isso, na prática, não passa na cabeça de quem sofre dessas maldições, então, deixamos de lado aqui. A morte é um “fim” e um alívio, pra gente aqui na terra, a ansiedade constante é estar em um pesadelo sem fim, enquanto uma multidão berra no teu ouvido o quanto tu é inútil por não “querer acordar”. Todos os dias. O tempo todo.
Quem levanta a bandeira mostrando apoio, também deixa o amiguinho ansioso com planos que ELE escolheu e não vai te avisar pq é surpresa! Imagina se ele descobrisse que ELE TÁ CAUSANDO MAIS CRISES, enquanto finge preocupação e apoio, te tirando de casa quando ELE QUER e não quando a gente CONSEGUE?
Quem levanta essa bandeira, também te enche de conselhos e sugestões QUE NÃO SERVEM DE NADA, além de piorar. E por tabela te fazem ficar frustrada por não tentar. Mas a pessoa linda não falava de ansiedade, falava de nervosismo, de algo bem mais corriqueiro e, digamos, mais fácil controlar.
Quem levanta essa bandeira, tá lá te dizendo “me chama se precisar”, mas não vai estar lá quando tu precisar de verdade, a gente sabe que não, a gente NÃO VAI CHAMAR, pq é melhor assim, pq vai ser pior, pq… é melhor não.
Quem levanta essa bandeira enche teus ouvidos te falando de Deus e fé… mas não sabe quantas vezes tu já pediu a Deus que te leve, já que todos teus outros pedidos de melhora, aos teus olhos, foram ignorados. Não enxerga o quanto irrita, magoa, frustra esse papo religioso, essa fé imposta, orações enfiadas goela abaixo. E a gente vai dar ouvidos, vai fingir concordar somente pra que aquele papo termine, morrendo de vontade de esganar a pessoa ou de ser BEM mal educada, se é que me entende!
Quem levanta essa bandeira, te cobra saída, visita, festa, passeio, sem imaginar o quanto é terrível só COGITAR fazer uma dessas coisas. O turbilhão de pensamentos e sintomas que desencadeiam desde o momento que a pessoa te convidou, até as mil possibilidades que passam na cabeça da gente. Tudo, desde a roupa, quem vai, quem não vai, o que fazer em caso de crise, como reajo às pessoas, quando volto, como volto, dinheiro investido, o que as pessoas vão pensar se eu conseguir fingir estar bem… absolutamente tudo, todos os detalhes estão girando e girando. Por mais que a gente QUEIRA MUITO aceitar convites, é MUITO difícil lidar com toda essa guerra interna, ainda mais sabendo que não dá pra dividir esses pensamentos sem ouvir “ah, que bobagem, te arruma e vamos!”. Não é assim que funciona! Muitas vezes nem é pela dificuldade em lidar com a gente, mas a dificuldade em lidar com os outros e todas as possibilidades, em todos os sentidos, pq sim: a gente pensa em tudo, sempre. Mesmo que tu diga pra não fazer. A gente NÃO QUER pensar em tudo, mas...
Quem levanta essa bandeira não tem noção do quanto uma frase, uma palavra, um tom de voz, uma história, um comentário pode fazer estrago. Aaaah, e como gostam de falar de tudo o que pode incomodar. Amam falar de doença, de sintomas, de assuntos que já nos incomodavam antes, de dar pitacos, indiretas, comentários ácidos... Aí ouvimos “aí, mas tu tá muito fresca, tudo te incomoda”. E TU ACHA QUE É DELICIOSO VIVER ASSIM? Tu acha que é de boa viver se esquivando de detalhes e tentando controlar as crises que podem surgir durante um simples comentário, ação ou o que for, enquanto a gente quase tá virando um balão de tanto respirar fundo com tudo o que se formou na nossa mente insana com alguns segundos de conversa?
E a família, e os parentes (ah, os parentes…), que parece que fizeram curso no SENAI pra ver quem consegue tirar a gente do eixo primeiro, arrancar o pior da gente, acabar com nossa paz, fingir apoio PROS OUTROS e gritar na nossa cara como somos ingratos e como devemos perdoar e ser e reagir e agir e enfrentar e parar de frescura e blá blá blá. Não é raro que seja a própria família (ou o tormento chamado: parente) que carregue o troféu por ter construído cada pedacinho do lixo que tu te transformou, afinal, eles estavam ali na tua volta desde o maldito dia do teu nascimento e infelizmente, parte de quem tu é, tu deve aos ensinamentos e exemplos do que te deram, e que tu deve agradecer, pois te amam e querem teu bem (imagina se fosse o contrário!). Não querendo generalizar, mas já generalizando, obviamente!

Eu poderia ficar aqui falando de todas as formas possíveis e imagináveis de não lidar com uma pessoa com transtorno de ansiedade, poderia ter exemplos dos mais variados, poderia até escrever um livro somente com histórias de crises e tudo o que envolve. O que escrevi até agora não chega nem perto de todo o problema! Cada um de nós tem seus relatos, suas histórias, seus gatilhos, enfim… falo apenas um pouquinho do que eu vivencio.
Mas eu quero mesmo é dizer que se tu decidir apoiar uma causa, tu precisa de verdade, querer entender como é. E aos olhos de quem sofre, NÃO DOS TEUS! Eu tenho evitado as pessoas, tenho evitado quase tudo pq eu sei como é chato atrapalhar o rolê alheio pq eu não tô cabendo dentro de mim, às vezes a gente não sabe nem explicar o que tá sentindo, imagina transformar isso em palavras e avisar “ei, galera, tô mal”, conseguindo expressar de que forma, daí desencadear trocentas situações constrangedoras e frustrantes. Se sentindo culpada por não ter recusado logo mais um convite, assim que ele surgiu, e ter evitado todo o transtorno.
Eu passei a vida dando prioridade ao que facilita pros outros, ao que barateia pros outros, ao que deixa os outros mais felizes, confortáveis e satisfeitos. Eu priorizava passar trabalho em troca da companhia das pessoas. Elas acostumaram com isso, mas eu não faço mais isso!
Essa onda de inferno, me fez ver que JÁ CHEGA. Que eu tô chata, sim. Que eu tô “melindrosa”, sim. Que eu tô escolhendo a dedo quando e como reagir, pq só eu sei o que passa dentro de mim. Só eu sei os meus sintomas, só eu sei a força que é pra não abrir a porta de um carro em movimento e me jogar pra fora, ou aproveitar a faca enquanto faço a janta, ou o caminhão que vem logo ali a frente. Tudo isso passa pela cabeça da gente 24h por dia. Mas a gente sabe que não pode falar. A gente apenas sorri, finge que tá seguindo o baile. As pessoas acreditam, pq a gente meio que aprende a mentir muito bem sobre nosso estado.
Uma coisa também, muito desgastante é que pra que as pessoas acreditem, a gente não pode aproveitar os momentos bons. Não pode dar risada, não pode fazer uma tentativa, não pode aproveitar o momento de coragem e fazer algo fora da nossa nova realidade. Quando surge um dia ou um período em que os sintomas dão uma trégua, a gente quer ao máximo se entregar àquilo! Curtir um momento de normalidade, se sentir novamente como antes, como “normal”, como humana, sei lá como definir. Mas a gente não pode. Aos olhos dos “levantadores de falsa bandeira amarela”, um dia vencido significa que tudo acabou. Conseguiu hoje? Consegue pra sempre! “Mas ontem tu tava bem”, “mas faz um esforcinho”, etc, etc, etc.
Tem que ficar claro que hoje tudo pode parecer ótimo. Amanhã o pesadelo bate na porta e não espera a gente abrir. Talvez nem precise chegar o amanhã. Talvez no meio daquela gargalhada da qual a gente tanto sente falta, apareça um pensamento, uma imagem, uma lembrança, um cheiro, qualquer coisa que nos puxe de volta pro buraco. E a gente finge, continua gargalhando, respira fundo, tenta arrumar alguma desculpa pra sair dali e ir pro nosso quarto, nossa cama, nosso remédio e abrace nosso pesadelo pq, ao que parece, nossa realidade é essa agora.
Mas quem acredita?
Quem, no meio dessas bandeiras amarelas todas, entende de verdade que é assim?
Eu respondo: apenas quem sente!
Desculpa o tamanho do texto. Os erros. O que for. Relatei a realidade que eu enxergo. Do meu camarote com visão privilegiada, sem pensar muito, mas existem outros graus, outras histórias, outras dores, outras formas de ver tudo isso. Gente que supera, tem gente que enfrenta e gente que não vai conseguir chegar nem ao fim desse texto extenso, pq foi tudo pesado demais pra ela lidar sozinha no meio da multidão.
Então, se for dar apoio de verdade, pensa bem se tu consegue, se tu quer lidar com coisas pesadas demais, se tu tem MUITA, MAS MUITA PACIÊNCIA, e MUITA EMPATIA senão, melhor pra todo mundo que tu só torça ou reze por quem precisa. As vezes é melhor a gente não se envolver no que não conhece, ajuda mais! Não é por mal, mas, precisamos ser práticos!
Esse papo sobre “peça ajuda”, é vista de forma bem bonita por quem tá de fora, mas é a chance de uma piora enorme se não for da forma correta PRA GENTE. Por isso muita gente prefere não pedir ajuda!
Obviamente, falei somente sobre ansiedade, pois é onde posso me estender por ter história pra contar. O setembro amarelo fala sobre suicídio, sobre outros transtornos tão graves e cruéis quanto a ansiedade. E obviamente todos precisam de cuidado, de atenção e da ajuda correta!
Acredito que algo do que disse aqui acabe se encaixando de forma genérica, de alguma forma.
Obrigada por ler até aqui!
