Buscando a Utopia!

O Sol rachava o solo da caatinga. A água era uma lembrança remota, memória de uma vida verdejante, ofuscada pela morte seca e salgada descoberta a cada novo olhar. A seca é urubu implacável e perene, espreitando as suas vítimas padecerem eternamente na miséria da inanição sedenta.

O burrico ossudo e esquálido, chamado Quixote, acompanhado de seu inseparável camarada, Sancho, um bode sujo e inchado, seguiam sua jornada em busca do Eldorado, não aquela cidade mítica construída com o ouro amazônico, mas sim, aquele lugarejo mágico, em busca do qual a cadelinha Baleia partira há pouco tempo, de frescor, umidade e júbilo.

Sancho orientava Quixote pela senda da perseverança: a Utopia, dizia ele, são os nossos melhores sonhos que, como o horizonte, caminham para a frente à medida em que avançamos. Inalcançável e saborosa, ela é como uma mola, propulsionando-nos rumo aos desenvolvimentos e objetivos.

Mas o caminho exigia esforço e vigilância, enquanto a sedução por tentações imediatas desviavam-nos da trilha rumo à construção do Novo Mundo, orientado pelos valores da justiça, equidade e Liberdade.

Quixote era pródigo em acreditar em armadilhas ilusórias, nestes aparentes atalhos fáceis, regados por autoritarismo, desconfiança e individualismo, e, ludibriado por falsas promessas, crédulo em alcançar a utopia imediatamente, desviava-se por terras de penúria e carestia, perdendo-se em desertos áridos, solitários e violentos.

Não há atalhos em nosso rumo, repetia severamente Sancho: só com trabalho duro e persistente atingiremos novos horizontes.

Já com a pelagem alva, e de porte esbelto, Sancho ladeava Quixote que, agora, alazão carnudo e impávido, olhou, com altivez, por todos os passos, já perdidos e trilhados, mas não esquecidos, e disse para aquele que o trouxera durante toda a jornada eternamente contínua:

“Sancho, meu amigo, a Utopia não é como o Horizonte, abstrato e inatingível. Ela é como nosso caminho, eterno, em construção, real... É a esperança de uma Outra Existência!”