Já viu o novo do Spike Lee?

Ku Klux Klan, Poder Negro, Holocausto e Donald Trump

Por: Marcela Lisboa e Thamyra Thâmara

É isso mesmo, vamos falar sobre blackkklansman ou “Infiltrado na Klan”, como ficou o título no Brasil. O novo filme do Spike Lee… Cês sabem quem é, né?

Spike Lee, Thamyra Thâmara e Marcelo Magano I Favelados Pelo Mundo I Michel Jackson’s birthday

O premiado ator, diretor, roteirista e produtor de Do the Right Thing (Faça a Coisa Certa), She’s Gotta Have It (Ela Quer Tudo) e Malcom X tem outros 45 filmes. Confessamos que depois de Chi-raq já estávamos com saudades. Aí ele chegou na pista causando e representando o bonde: Blackkksman é tão atual que foi para Cannes concorrendo ao Palma de Ouro e levou o Grand Prix.

Se você desconhece o mundo do cinema negro, maratona de Spike é uma indicação bacana (e tá rolando no CCBB). Spike é desses diretores que decidiram falar de si em primeira pessoa (e a gente agradece) /mão pro alto/.

Nesses momentos a gente agradece por ser o país mais preto fora do continente africano e entende porque ele veio em 1986 para lançar a primeira versão de Ela Quer Tudo e escolheu a Bahia e o Rio de Janeiro para gravar They Don’t Care About Us, de Michael Jackson em 1995.

Clipe dirigido por Spike Lee

E até deu sua conferida no Centro Afro Carioca de Cinema, a convite de Zózimo Bulbul em 2012. Lee só peca por até hoje não ter lançado Go Brazil Go, um documentário sobre a ascensão do país como potência econômica que começou naquele ano, estacionou com as manifestações de 2013 e anda meio sem notícias desde que gravou com Os Racionais em 2014.

Zózimo Bulbul e Spike Lee I Foto: Ierê Fereira

Mas vamos ao que interessa!

Blackkklansman ou Infiltrado na Klan é uma comédia dramática. Mas em alguns momentos veio a dúvida, não poderia ser um documentário ficcional? (A propósito, a linguagem está bombando). Levantamos essa questão, não porque a história do policial, Ron Stallworth (John David Washington), que se infiltra no Klan é verídica (calma, polêmicas mais tarde), mas porque ele usa o recurso de misturar imagens reais de protestos, falas de Donald Trump e de David Duke, ex líder da Ku Klux Klan, durante o filme. Além de trazer referências históricas como a Guerra dos Confederados e o clássico (racista) ‘O Nascimento de uma Nação’, para contextualizar e justificar, de certa forma, o surgimento e crescimento da organização e do nacionalismo branco.

Um filme intenso e complexo que vale a pena ser visto mais de uma vez, mas como não aguentamos (!), deixamos aqui nossas impressões no quesito estética e narrativa.

Logo de início, o ator Alec Baldwin introduz o tema do filme a partir do ponto de vista dos supremacistas brancos. Nos chama a atenção, a escolha dos óculos, que marcam o olhar do personagem, a forma como as imagens se projetam em seu rosto. Carregadas em vermelho, dando ênfase à violência contida em seu discurso. Outro destaque é a fotografia durante o discurso do Kwame Ture (conhecido como Stokely Carmichael). No fundo preto, rostos negros emoldurados pelo contraste num jogo de luz e sombra (linda de morrer).

Agora vamos pular para as surras de papão que o filme dá? Calmae que antes queremos pontuar que o movimento negro não é monopolítico e cabem diversas interpretações. Muito do que vamos levantar aqui tem a ver com nossas primeiras impressões do filme, pesquisa e visão de mundo. Sem verdades absolutas ok ? Ok.

Logo de cara, o humor (de) negro como subversão aparece na forma em que os integrantes da KKK são retratados. Do bobo branco sulista ao extremista maluco, rola uma crítica. É inegável o gostinho de satisfação quando Ron entra para a KKK (estranho, eu sei). Soa como um afago coletivo “olha só como eles são idiotas”. E o personagem gasta essa onda em vários momentos.

A crítica ao racismo dentro da corporação policial também não é deixada de lado, aqui os policiais são retratados como corruptos e racistas, mas também idiotizados. Spike não abriu mão da ironia e nem do deboche como força política. Ron é o homem negro que, na malandragem, gastou com a cara de todos os que o viam como nada na corporação. Ele não era só um negro, mas o primeiro policial negro de seu distrito. E nem precisou de uma mulher branca pra se afirmar (valeu, Fanon).

Olha o racismo linguístico aí, gente.

Vocês já ouviram falar do termo Black English? É conhecido por descrever como pessoas negras falam inglês. Tipo you is beautiful, quando na verdade se pronuncia you are beautiful. Uma forma de marcar uma coisa chamada letramento racial. Em terras brasilis a Lélia Gonzales chama de Pretuguês. Tipo a gente aqui, falando como quisé. Em uma conversa por telefone Ron questiona Duke sobre sua própria identidade: como você sabe que eu não sou um negro? E ele responde: pela forma como você fala (olha o letramento racial aí, gente). Porra, Lee. Que sacada!

Mas e esse lance do judeu? Teria Spike se rendido estado de Israel ? Ou só quis ampliar a dororidade dos pretos ampliando o conceito de humanidade? A gente queria mesmo era um papo com ele para perguntar: qual foi? Mas vamos arriscar, o que ele fez foi do caralho! Chamou os judeus na chincha e colocou contra a parede: vocês acham que são brancos?

Quando falamos de crimes contra a humanidade, a certeza é que alguém certamente vai apontar para o holocausto. Certo? Afinal, quantos livros e filmes sobre o tema você conhece? Tcharãa aí que está o acerto de Lee. Tá, eu sei que você sabe que o maior crime contra a humanidade foi a escravidão que se desdobra no genocídio do povo negro até hoje, mas quantas pessoas para além da bolha militante sabem ou levam esse papo a sério? Neguinho é foda, mas alguém aí fala do judeu?

ALERTA ANTINEGRITUDE

Chuck sai. Ron fica.

É justamente aí a sacada política do Spike. Ao mesmo tempo em que aproxima Chuck de Ron no que fere ao racismo, não deixa de pontuar: a cor vem primeiro. Chegou a hora de pautar o que é humanidade a partir daqueles que sofrem de sua negação.

BLACK LIVES MATTER!

Mais Pose e menos Crepúsculo. Vale dar uma bisbilhotada no documentário do Morgan Freeman.

ALERTA SPOILER

Chegando ao final, tem socão no estômago com imagens do discurso do Donald Trump amenizando os atos de violência da Ku Klux Klan e David Duke defendendo a supremacia branca. Tudo intercalado com cenas de protesto. Aí vem a mensagem final NÃO DÁ MAIS PRA VIVER NO ÓDIO. Lee é um diretor do seu tempo, capaz de trazer para as telas do cinema a releitura dos conflitos e desafios da contemporaneidade.

Como nem tudo são flores, recentemente Spike Lee foi acusado pelo também diretor Boots Riley (de Sorry to Bother You), de mudar eventos históricos para retratar a policia americana de uma forma mais positiva (Que ces acharam?). Riley declarou que na vida real o policial John David Washington fez parte de uma série de operações secretas para atacar organizações políticas. Entre elas, os militantes dos Pantera Negras. Demos aquela pesquisada e não encontramos nada além de fotos no twitter de Boots. Caso vocês encontrem algo mais aprofundado desse bafafá mandem por aqui que vamos atualizando as notícias. Fechou?

No mais,

TODO PODER PARA O POVO!