Digerindo 2018: experiências de leitura de ficção

2018 foi o ano da minha segunda colação de grau e, portanto, o primeiro depois de muitos em que eu não mantive uma lista de leituras obrigatórias a seguir — hábito que em geral gosto de ter, mas vi com bons olhos essa pausa depois de um período de oito anos conciliando trabalho, universidade e atividades do lar. Mas, se as possibilidades de escolha eram muitas e prazerosamente minhas, vi meu ritmo de leitura de ficção cair drasticamente após abrir um negócio próprio logo no começo do ano. Não me orgulho, mas também tento não me culpar tanto por ter lido apenas três livros em 2018, porque sei o quão desgastante é minha rotina e respeito meu próprio cansaço. (E tem outra coisa também, né: entre os três, um deles é Graça Infinita, um tijolo de mais de mil páginas e complexo pra cacete. A polícia da literatura há de me perdoar).

Comecei o ano com Cenas de abril, da Ana Cristina Cesar. O livro é de 1979 e bem curtinho, misturando prosa e poesia. Li enquanto acampava em um ano novo especialmente chuvoso em Morretes, e me lembro mais do processo de leitura do que da obra em si, afinal eu estava de férias, em paz e sentindo prazer no tédio que acompanha esse tipo de feriado. Li cada um dos textos vagarosamente, tentando extrair o máximo de cada linha, tirando cochilos entre eles e depois relendo tudo de novo. Foi gostoso e despreocupado.

De volta à Curitiba, no entanto, senti vontade de investir meu tempo em interesses antigos, e foi assim que dei uma pausa (ainda não retomada) no restante dos livros da Ana Cesar para recomeçar o do David Foster Wallace — eu já tinha lido umas 200 páginas dele em 2016, mas fazer isso trabalhando em um navio de cruzeiros não foi mesmo a melhor das ideias. Este é o tipo de obra que muda uma pessoa, estou plenamente certa disso. Seu impacto foi tão grande em mim que o desafio de tentar organizar qualquer tipo de pensamento analítico sobre ele demorou a deslanchar e ainda não foi concluído — tenho algumas ideias em mente, um grande rascunho e uma esperança tímida de um dia terminá-lo.

Bom, mas é isso: Graça Infinita foi o livro que me acompanhou durante a maior parte de 2018, e é difícil não se sentir impactada por esta distopia complexamente costurada que toca de maneira muito original e empática em questões como a solidão em suas diversas formas, a infelicidade, a nossa obsessão por entretenimento, o abuso de substâncias e a busca pelo sentido da vida. A escrita é visceral, difícil, triste, divertida e cheia de experimentações: ler tornou-se uma espécie de puzzle, daqueles que demandam trabalho. Houve dias em que consegui ler apenas duas páginas — não por falta de tempo ou vontade, mas porque precisava pensar. Muitas vezes me senti melancólica. Porém, essa melancolia sempre foi acompanhada de perto pelo enorme prazer inerente da boa literatura, que é ser arremessado na cabeça de outras pessoas e ser transformado por elas.

Dá pra resumir dizendo que este foi um livro pesado para um ano também pesado. Quando o terminei, precisei de mais tempo do que a média para conseguir me desligar da história e parar de querer pesquisar cada detalhe sobre autor e obra. Passei por uma espécie de luto e cheguei até mesmo a escrever um e-mail sentimentaloide para o tradutor, com quem tive o prazer de ter algumas aulas na UFPR. Ele não respondeu, no entanto.

Quando aceitei o fim e decidi iniciar uma nova leitura, me comprometi a me desvencilhar da aura masculina que paira nas obras do DFW (essa é toda uma questão que eu gostaria de abordar de forma mais extensa, mas enfim). Foi assim que escolhi Americanah, da Chimananda Adichie. Eu já tinha visto o TED dela sobre o perigo da história única e estava curiosa.

Estranhei muito no começo, confesso. Depois de passar praticamente o ano inteiro lendo um mesmo autor, começar outro com um estilo completamente diferente me causou certa confusão. O ritmo me parecia rápido demais, e a relação amorosa entre os personagens muito forçada. Mas essa sensação não chegou a durar três capítulos. Eu precisava apenas me libertar do fantasma do DFW na cabeça para entender o grande trunfo de Americanah.

O que Chimananda faz é nos apresentar uma personagem feminina maravilhosa, Ifemelu, que sai de seu país ainda jovem para estudar nos Estados Unidos. Através dos olhos dela, o leitor como eu (branca que se considera esclarecida na medida do possível) é confrontado com questões de gênero, raça e identidade de forma nada sutil. Quando um problema social do qual nós já temos conhecimento nos é apresentado de forma personalizada, o impacto é muito maior. Continuei não gostando da história de amor implacável, mas o livro não é sobre isso.

Em dezembro, fiz uma compra impulsiva e me associei a um clube de livros. O primeiro que recebi foi O coração é um caçador solitário, da Carson McCullers. Foi ele que me acompanhou nas férias e sigo impactada, mas o comentário vai ficar para o resumo de 2019.