Crônica do vem-e-vai

A mala já estava pesando em meus ombros, quando cheguei no guichê lotado da Rodoviária Tietê. Lá tudo é bem característico: o som das pombas voando por nossas cabeças, o cheiro de corpos misturados, comida, pressa e outros aromas desconhecidos, envolvendo um cenário cinza e engessado. 
- Uma passagem pra Ribeirão, 14 horas.
- Não tem mais. Você vai ter que esperar o das 15 horas. Tá lotado, não dá pra ir agora.
Não. Dá. Pra. Ir. Agora. 
E o mais fundo que pude, inspirei. Eu queria ir embora. Não que São Paulo me fizesse mal, pelo contrário. Lá sempre tem histórias e pessoas que passam. Passam rápido, por vezes morrem, sem percebermos. Não no sentido literal da palavra, morrem figurativamente, porque deixam de existir em nossas vidas. Ainda não compreendi como isso acontece — às vezes em que sou a assassina, ou a vítima. Mas, eu já não queria as história e as pessoas. E ainda era 13h24.
Sentei em um banco azul morto, torcendo para os ponteiros do relógio correrem mais rápido. Enquanto isso, pessoas passavam. Um senhor dormia, com a cabeça pendente. Uma criança chorava. Um casal se beijava. Comecei a imaginar as histórias que o cercavam: quem estariam deixando para trás, que conflitos íntimos eles guardavam, quem eles mataram, quem eles deixaram morrer, quem os matou… Mesmo fugindo das histórias, elas me perseguiam como uma sombra na mais tênue luz.
Eu mergulhava cada vez mais fundo, imaginando o como aquele vai-e-vem da rodoviária era um frio encontro de histórias que não se conheciam, porque a maioria das pessoas estava lá apenas para dizer adeus ou um olá. Encontrar e se despedir, esperando que o tempo voasse — assim como eu, elas não queriam ficar ali. E suas histórias morriam.
14h00. O senhor ainda dormia. O casal já tinha se despedido, um beijo frouxo. Quando se imagina a história dos outros, você esbarra em você mesmo. Eu também me despedi. Encontrei, reencontrei. E em cada cidade que percorri, deixei uma aspas. Ou um ponto final. 
Levantei da cadeira, estava na hora. Olhei para aqueles personagens. Dei adeus para cada história, antes de dar adeus à minha própria narrativa.

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