Mãe!, você precisa ver isso.

Fazia tempo que um filme não me chamava tanta atenção, como foi o caso de Mãe!. Ao começar na fila para comprar ingressos, a funcionária do cinema explicava para outra moça que o gênero se encaixava em um drama/suspense/terror. Isso já me saltou os olhos, pois, no meu pouco conhecimento cinematográfico, são os três tipos de filmes mais difíceis de se fazer.

Pois bem. Quem está esperando um filme de terror, pode abandonar o barco. Mãe! não tem nada a ver com aqueles longa-metragens de Guillermo del Toro, ou as filmagens baseadas nos livros de Stephen King (que estão em alta agora, né), ou aquelas coisas bem gore que saem de monte nos cinemas. Mãe! não se encaixa em nenhum deles. E digo mais: é um filme que não se encaixa em nenhum padrão genérico, mas que causa um desconforto singular no espectador.

Você não terá medo. Não levará sustos. Mas, garanto que terá pesadelos. Ânsia. E um desconforto tremendo.

E não era pra menos: o diretor é Darren Aronofsky, que ficou conhecido por outros filmes imersivos, como Cisne Negro. Darren, meu caro, você está de parabéns. Provavelmente, não é um filme que agrará todos os paladares, já que o diretor tem o adjetivo abstrato como o principal norteador de suas produções. Em Mãe!, há uma dosagem do que é intangível com o mundo etéreo, em um jogo de simbologias e referências, elevado ao ápice.

Eu queria dizer pra você que você sairá do cinema pensando no jantar. Ou convidando a outra pessoa que foi junto para beber algo. Ou ainda que vai ficar parado, esperando os créditos subirem, com aquele âmago que tem mais.

Não.

Você vai querer sair logo da sala. Vai olhar para o rosto da pessoa que está ao seu lado e verá que ela sente o mesmo. De duas, uma: vocês podem permanecer em silêncio, mergulhados em pensamentos íntimos e particulares. Ou podem começar uma discussão, dessas profundas que, muitas vezes, são evitadas por mera preguiça ou por falta de repertório.

Mãe! não é um filme para quem tem preguiça de pensar.

Agora, vamos ao que interessa: a narrativa do filme. E antes que me condenem, já aviso que tem SPOILERS. Se você está com vontade de assistir, sugiro que pare por aqui e tire suas próprias conclusões, antes de ler as minhas. Se você for curioso, siga adiante.

A história tem como núcleo um casal (lindamente interpretado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem), que mora na antiga casa do marido. Toda a estrutura do imóvel está em manutenção, já que anos antes, houve um incêndio que destruiu tudo o que havia lá dentro. Quem faz todos os reparos é a mulher, que aparece como uma figura submissa e extremamente apaixonada. Enquanto isso, o marido, um renomado escritor de poemas, sofre com um bloqueio criativo e não consegue criar nenhum texto.

Aronofsky cria um cenário belo e ao mesmo tempo cru, que em pequenos passos vai traçando contornos pela mão de uma mulher.

Tudo muda com a chegada de um médico (Ed Harris), que diz ser muito fã do poeta. Eles o agregam em casa, com um leve desconforto por parte da mulher. Logo, mais pessoas são convidadas a se hospedarem no local: a esposa do médico (Michelle Pfeiffer) e, logo depois, seus dois filhos. Toda a trama é inspirada em referências do Gênesis, com Adão e Eva, a ferida na costela, o pecado original e o fruto proibido e, depois, com seus filhos, Caim e Abel — inclusive, o assassinato dos irmãos.

Confesso que demorei para pegar isso. Em vários momentos, me perguntava se não eram apenas pessoas agindo estranho em uma casa que não era deles. Mas, não. Quem estudou os ensinos bíblicos vai encontrar de letra.

É um começo relativamente calmo, mas que já cria uma apreensão única. O personagem de Jennifer Lawrence é constantemente negligenciado, submetido, apreendido e pouco ouvido. Quando mais convidados chegam, mesmo sem a autorização dela, a casa começa a ser destruída, em meio a gritos de advertência.

Foi aí que parei para pensar: não é apenas as referências bíblicas que estão à tona. Mas, toda uma jogada de depredação do meio ambiente, de uso indevido do que não é nosso (mas que julgamos ser), de degradação de estruturas e de falta de consciência crítica.

O mais interessante é a sensação de empatia que criamos com a mulher do poeta, que tenta, de todas as formas, manter a integridade da casa, de seu árduo trabalho de reforma e de um ambiente com as mínimas condições para viver.

Bem, meus queridos amigos, se você achou que o filme atingiu o clímax, está muito enganado.

A personagem de Jennifer Lawrence fica grávida e, finalmente, o poeta ganha sua fonte de inspiração.

Uma pausa para o público, afinal.

É nesse momento que passamos a julgar o que é inspiração de fato. De onde vem o ato de criar, ao mesmo tempo, em que toda uma destruição é causada. É o fazer e refazer em uma relação dialética com a vida e a morte.

Com o bebê prestes a nascer, o poeta volta, novamente, ao destaque nos livros mais vendidos. Uma infinidade de fãs começa a aparecer na residência do casal e, assim, a tomar conta do local. Ao mesmo tempo em que o personagem de Javier Bardem é visto como o cara bondoso, mas que também é ameaçador, orgulhoso, vaidoso.

Todo o espaço é depredado. O que Aronofsky faz é mostrar, em um espaço microssocial, todas as loucuras da Humanidade. Brigas políticas, fanatismo religioso, luta por território e, é claro, mortes. Mortes de pessoas que não contemplam em total a palavra do poeta. Mortes de pessoas que tentam ajudar a esposa grávida, mortes de quem tenta resistir em meio a um caos.

É uma realidade escancarada, que evitamos acreditar, que julgamos não fazer parte, porque vivemos encolhidos e com os olhos tapados. É aí que você pensa: eu só quero que esse sofrimento acabe. Só quero que essas pessoas saiam da casa, deem espaço para a protagonista e percebam que é errado.

O conceito de partilha é distorcido. Mas, o que é mais profundo é que essa distorção é o que acreditamos ser o certo. Vemos que tudo o que acontece no espaço da casa, também acontece em nossa sociedade — e nós defendemos aquilo!

Bem, e como se não bastasse toda essa atmosfera de destruição e loucura, o bebê nasce em meio ao tumulto. A esposa, temerosa que o marido-poeta leve a criança para as pessoas loucas, o impede de segurar o filho. Mas, quando menos percebe, a criança já não está mais em seus braços, e é levantada por uma multidão megalomaníaca.

Amigos, segurei o estômago nessa hora. A criança é morta e, como se não bastasse, eles comem o corpo do bebê, em uma clara apologia ao sangue e corpo de Cristo.

Ora, não é apenas entender todo o simbologismo que tem por trás da narrativa.

Não é apenas pegar as referências bíblicas.

É pensar no que é mais profundo, no que demoramos para interpretar, pois estamos muito ocupados em sentir o desconforto do filme.

Mãe! é uma antropologia.

É pensar, refletir e discutir sobre o que fazemos com o nosso lar (que não é nosso, de fato), como cuidamos do ambiente em que estamos, em uma clara referência às questões ambientais.

É pensar, refletir e discutir o fanatismo religioso, responsável por inúmeras mortes em nome de um criador, julgar aqueles que não acreditam nas mesmas crenças que você, como se houvesse uma única Verdade.

É pensar, refletir e discutir o papel da mulher, que deve permanecer calada em meio a um ambiente falocêntrico, em que o criador é um patriarca que não dá chance de voz à sua própria esposa.

Jennifer Lawrence aparece como uma mãe. Mas, não uma mãe qualquer: ela é a personificação da casa, do lar, da Mãe Natureza e, é claro, da Mãe de Jesus.

Acho que o filme de Aronofsky é uma obra aberta. O longa não pode ser compreendido apenas com os olhos. A interpretação virá depois e o desconforto não acabará na poltrona do cinema.

A fábula perfeita é um tapa na cara. De todos nós.
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