O suicídio acadêmico

O desabafo das cobranças invisíveis que cercam a pós-graduação

Aos 23 anos de existência, não consigo me lembrar um só dia em que estive fora dos estudos. Meus pais me educaram cedo — desde os 3, eu já frequentava o maternal e sabia identificar as letras que compunham meu nome. Parecia normal para quem veio de uma família de professores, com livros espalhados por toda a casa e o incentivo para crescer e se aperfeiçoar.

Fiz o fundamental I, II, ensino médio e passei direto em uma faculdade pública. Assim, sem fazer nenhum curso ou escola preparatória. Nunca repeti uma matéria se quer. Nunca fiquei de recuperação. Nunca tirei menos que 8 em nenhuma disciplina. E, assim mesmo, desde o colegial, eu tinha pouco incentivo por parte da instituição que me cercava na época. Eu lembro da frase dita por um dos professores “Você não vai passar sem cursinho”. Entretanto, eu passei. E cá estamos, no fim do meu Mestrado em Comunicação, também por uma universidade pública.

Acontece que eu estou cansada. As pessoas parecem ter medo de falar nisso, mas hoje eu percebi o quanto cheguei ao fundo do poço. Porque parece que quanto mais eu nado, fico mais longe da praia. Não é inversamente proporcional, como deveria ser.

Existem certas cobranças invisíveis. E existem aquelas que estão bem aos nossos olhos. Há seis anos realizo uma pesquisa da qual me orgulho muito. Parece um filho, que aos poucos, fui criando, dando contornos, características, formas e formatos que me pertencem enquanto pesquisadora-mãe. Mas, ao chegar no fim dessa jornada, conhecendo um pouco mais sobre a realidade, tenho medo de ter uma criação em vão, como se todos esses anos fossem em pó.

Vivemos em um país com pouco incentivo para pesquisa. E com uma crença que neglicencia as Humanidades. Afinal, um bom estudo sempre aparece como aquele que traz resultados numéricos, novos remédios, a cura do câncer. E sim, eles são definitivamente importantes. Mas, é nessa toada que as interpretações sociais, os contextos, as análises abstratas são colocadas de lado, como se fosse um luxo do pesquisador estar naquela área. É uma triste realidade. E sinto, a cada dia que passa, o peso de escolher as palavras, ao invés dos números, ou dos compostos químicos.

Estamos cercados de pessoas que acreditam que Ciência é naturais e exatas, não humanas. E por mais que nós, pesquisadores que somos, sabemos que não é assim, o senso comum dói. Ele parece latejar em nossa cabeça, martelar nossas costas, afetar nossa consciência. E isso é sempre evidente em nossa escrita: “ressaltamos a importância dessa pesquisa…”. É como se quiséssemos reafirmar para nós mesmos, para também não cair no senso comum.

Ainda assim, há outros enfrentamentos diários. Passei anos trabalhando em torno da minha pesquisa, enquanto ouvia frequentemente “você só estuda?”. Ou então “você é jornalista, mas não trabalha na área?”, seguida de uma cara desgostosa com a escolha que eu mesma fiz. E, ainda assim, julgassem a profissão que escolhi [jornalista] e a que exerço [pesquisadora], porque ambas não são parte do mercado salvador do Brasil, conhecido como técnico, calculista e objetivo.

Bem, a não ser que você seja repórter de televisão. Ou de algum grande veículo, como o Estado, ou a Folha, ou a Globo… Pois é. O que poucos sabem é que essa realidade faz parte de poucos profissionais. Veja: eu tenho um amigo que está no Estadão. O menino é realmente ótimo, um dos melhores jornalistas que já conheci. Tenho muito orgulho de ser amiga dele. Só que, para entrar no jornal, não bastou a faculdade. É preciso fazer um curso preparatório da própria empresa, junto com um monte de galeras, e você pode ou não ser escolhido. E isso acontece em um período de quase um ano. Ou seja, você se forma, mas tem que ficar praticamente UM ANO sem trabalhar, para ter a POSSIBILIDADE de ser um repórter contratado. Ok. Pode excluir aí uma grande parte da população que não tem como ficar esse tempo todo vivendo de vento, ou às custas dos pais. Ou seja, um curso de privilegiados.

“Ah, mas você ganha muito conhecimento”.

Concordo.

Mas, é uma frase engraçada para um país que pouco valoriza o estudo. Que não incentiva. Que pouco financia. Que não dá apoio.

Quer participar do curso? Ótimo. Se vira. Se você passar, terá que ficar conosco esse tempo todo, e não queremos saber como você se mantém. Afinal, não é problema nosso.

Não é muito diferente de quem escolhe a vida acadêmica. Você não trabalha em um grande jornal, não aparece na televisão e também não está pesquisando a cura do câncer. Também não tem carteira assinada (o que é um privilégio na atual circunstância), não tem experiência de mercado, não conhece pessoas influentes. Pois é. Qual a sua utilidade para a sociedade?

E mesmo com os risinhos tortos, tentamos nos reerguer, porque acreditamos naquilo que estudamos. Acreditamos que não somos aquela mão de obra ativa-passiva.

Mas, e quando acaba?

Essa é uma outra questão. Você tem um título em mãos e não tem mais financiamento. Há apenas você, e um documento que garante algumas abreviações antes de seu nome. E, ainda assim, mesmo você se esforçando para preencher o lattes, sempre parece que você necessita de mais e mais cargos. Ou menos abreviaturas, porque se você tiver formação demais, as empresas não vão querer te pagar.

Afinal, por que pagar um Mestre ou Doutor, se eu posso pagar um especialista? É grande a diferença de 40 reais hora/aula, para R$80. Temos que pensar no lucro. A educação virou isso: um produto. Uma esfera mercantilizada. O valor, novamente, não é medido em conhecimento, mas em números financeiros.

E a realidade fica aí, estampada: Professores Mestres Doutores Desempregados.

E, para finalizar, há ainda uma cobrança interior. São como pedras enfiadas em nossos bolsos, presas para nos afundar ainda mais, quando mergulhamos. Constantemente, nos afogamos em nossas próprias exigências. São 20 anos ininterruptos de estudos. Eu me cobro para ser perfeita. Afinal, se eu não for perfeita diante de toda essa realidade, qual é o meu propósito?

E assim, meus queridos leitores amigos, continuamos ouvindo que fazemos muita graça, muito drama, para quem apenas estuda. Ou para quem ganha um dinheiro do governo, só para ler. E que não existe isso de depressão na pós-graduação.

Tenho medo que os títulos me matem. Que os artigos me sufoquem. Que as cobranças me amarrem em cordas tensionadas.

Amo o que eu faço. Mas, a cada dia que passa, fica mais difícil viver por amor.

Like what you read? Give Nayara Kobori a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.