Sou a garota Clementine

O cinema tem um poder mágico de bagunçar o imaginário das pessoas. Gosto da sensação de ver uma história, é quase como tocá-la. Não importa muito o estilo: aprendi a apreciar os desejos íntimos de cada personagem, mergulhar fundo em narrativas fantasiosas, como uma válvula de escape de um mundo que me cerca. Quando estou no cinema, a única coisa ao meu redor é uma tela que conta histórias.

Claro que, às vezes, reclamo de um roteiro ou outro. Ou da atuação de um artista. Ou até mesmo da fotografia. Sou uma crítica de cinema não-credenciada. Mas, tem um filme que ainda não consegui achar nenhum defeito: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (no bom português, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”).

Acredito que meu fascínio seja mais por identificação, do que por conhecimento cinematográfico, de fato. Entendia as aflições, medos e angústias de Clementine, interpretada por Kate Winslet. Apesar de meus cabelos continuarem loiros, já tive várias cores dentro de mim.

Sou ansiosa e impulsiva. Tomo decisões que me arrependo depois, só por achar que não estou vivendo ao máximo. E eu apago pessoas…

Não que eu goste de passar a borracha em almas, contudo, tenho o hábito de desaparecer ao me apegar. Veja bem, isso não significa que não me importo — pelo contrário: é como se fosse a minha única saída para não me importar demais. E depois, quando as pessoas também me apagam de suas memórias, eu grito silenciosamente: “Remember me. Try your best”.

Acredite, você não é o único que decidi rasurar. Eu não consegui viver no seu mundo, embora tenha tentado. Lembro que nos abraçamos, sem sabermos nossos nomes “It was so intimate… Like we were already lovers”. O melhor é ainda ter lembranças das coisas boas, mas elas sempre estão acompanhadas dos meus medos e de suas frases não ditas. Enquanto isso, eu repetia sem mover os lábios: “You don’t tell me things, Joel. I’m an open book”.

Entenda: eu apago pessoas, para que elas não me apaguem primeiro.

“I’m erasing you”.

Esquecer é muito mais fácil, sabe? Pode achar que é covardia, e talvez até seja mesmo. Mas, quem é você para me culpar? “Eu não sou um conceito, e muito menos perfeita. Sou só uma garota ferrada, procurando pela paz de espírito”.

O processo todo é doloroso. Apagar alguém. Desaparecer. Dói cavar lacunas em nossas próprias vidas. Tem dias que penso em não fazer isso, afinal, deixei pedaços de mim espalhados pela sua casa. Um fio de cabelo no chão, um perfume no travesseiro… É como um quebra-cabeças de alguém, com peças perdidas. Por isso, nunca consigo desaparecer por completo.

Em todo caso, prefiro a ilusão de ter sumido. É como se eu me assegurasse de ainda ter controle sobre a minha vida. Ou me ajudasse a erguer mais uma camada do meu castelo de cartas conhecido como amor próprio. Não quero a possibilidade de ventos fortes, enquanto equilibro o baralho. Apegar-se à alguém é isso: uma tempestade. Até o uso do verbo parece incorreto:

a p e g a r.

No final, é só mudar uma letra e o apego se apaga.

a p a g a r.

Queria poder ficar. “I wish I had stayed”. Mas, meu fio de cabelo já não está mais no chão, e você não sente mais o perfume no seu travesseiro. E mesmo que isso não te afete, “you said ‘so go’, with such a disdain, you know”, eu ainda espero te encontrar em Mountak.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Nayara Kobori’s story.