‘Louder than bombs’ e os dilemas da ausência

Nota: Com uma certa frequência não periódica (confuso, não?) escrevo no wordpress sobre diversos temas, poemas, crônicas e conversas. Aqui vou me ater a um tema específico: “estar fora de casa” e a contínua construção do lar. Inicialmente,quero publicar uma vez no mês aqui no medium.

Fonte: Uol mais

Já fazem três anos que saí da casa dos meus pais e dois anos morando sem familiares. Depois de um tempo de tantas idas e vindas, vamos construindo e desconstruindo n coisas, percebendo ou não que estamos fazendo isso. Existem pessoas que diferentes de mim, se ausentaram de suas casas mesmo morando dentro delas. As circunstâncias nem sempre beneficiam as pessoas em suas situações.

Empregos, faculdades, programas maravilhosos de pós-graduação, sonhos, missão… Existem coisas que nos movem a ir, e isso é particular para cada um. O que te faz mover e sair da inércia, mudar a trajetória? A conhecida polonesa, Rosa Luxemburgo, nos atenta sobre as correntes que prendem por não nos movimentarmos. Ir é justamente sentir o que o prende, decidir sobre soltar ou não.

“Louder than bombs” (2015) conta a estória da fotógrafa de guerra — Isabelle Reed — interpretada por Isabelle Huppert que falece em um acidente de carro, o filme trata sobre como a família lida com essa situação e as nuances que envolvem esse aparente acidente. A vida segue e isso é descrito no desenrolar da vida do pai (Gabriel Byrne) e dos dois filhos, inclusive o Jesse Eisenberg interpreta um dos filhos, o mais velho, e dê um voto de confiança nesse filme mesmo que ele esteja.

A Isabelle Reed como fotógrafa vive mais ausente do que presente na vida dos seus filhos, o Jonah (o filho mais velho) saiu de casa para cursar a graduação e seguiu longe da cidade dos pais. Em alguns momentos é perceptível como voltar ao que lhe pertenceu/pertence é a sensação que “The stranger in the mirror is wearing my clothes”. Jonah não sabe sobre o que conversar com o irmão, ele o desconhece em certos momentos. Ele desconhece o lugar em que cresceu.

O pai, residente fixo, é distante de tudo que lhe ocorre, suas tentativas de comunicação são frustradas diante da outra sintonia que seus filhos vivem. Isabelle em determinado momento decide parar de fotografar e permanecer em casa e são nesses instantes que me aproximo dessa personsagem.

Reprodução: Louder than Bombs

“Mas é difícil, sabe? Você quer logo voltar pra casa” Sim, sabemos como é difícil e como mais complicado é voltar. Ter que estar sempre chegando, aprender novamente o que eles gostam de comer, o que tem assistido recentemente e você não sabe, aprender sobre o que mudou dentro de um mês e a ausência não permitiu saber. Da mesma forma, eles te desconhecem.

Por mais que mantenha o contato e que exista conversas, é como se retirássemos fotografias isoladas de um álbum e apresentássemos para quem não estava presente no dia que as fotos foram tiradas.

O que te faz mover e sair da inércia, mudar a trajetória? A Reed fazia o que achava importante e nós também achamos, eu também acho. E isso implica situações que não podemos controlar e não há culpados nisso. Dentre essas situações, não controlamos a ausência.

Quando se está entre dois ou mais lugares, em algum momento alguém tem que perder. A Reed vivia entre o trabalho e a casa, e quando se viu presa, sentiu as amarras que a seguravam e a falta do campo de guerra. A ausência é um dilema contínuo enquanto a vida está em trânsito. Seja fisicamente em outro lugar, ou mentalmente em outro lugar.

A falta não pode ser preenchida quando voltamos, a falta existirá. O mês que passei fora não pode ser recuperado em um final de semana, a sua casa não é mais tão sua casa e a casa que você mora não é tão sua. Depois de um tempo em novas trajetórias, notamos que algumas correntes dos diversos lugares que passamos permanecem presas. E esse é o dilema da ausência: lidar com correntes enquanto se está em movimento.