E você? Vota por quê?

O Brasi está em caos. Você já deve no mínimo ter discutido seriamente sobre política com alguém nos últimos dias ou ficado bastante decepcionado com pessoas que defendem tanta coisa diferente de você.

A gente sabe, não é mais como em 2014 em que a discussão era ser a favor do liberalismo ou não, acreditar ou não em meritocracia, ser coxinha ou ser petralha. Agora a gente está discutindo democracia, porque ela está ameaçada. E aí me pego pensando: será mesmo?

Não tenho dúvidas do que um general e um ex-capitão são capazes de fazer no poder e ao contrário de 47% dos eleitores brasileiros que disseram sim a eles, eu não quero pagar pra ver, porque eu tenho medo.

Mas depois de um longo dia de luto após uma conversa desastrosa com uma pessoa que aparentemente se orgulha de ser conservadora e que está ok com tortura (mesmo de crianças) “se for pra manter as leis funcionando”, eu me peguei pensando que não estamos agindo como bons jardineiros, não estamos sequer detectando a raiz do mal e não estamos indo atrás da raiz.

Nossa democracia já está em decadência. Nossas instituições democráticas já falharam ao permitir que um sujeito criminoso possa se candidatar a presidência da república. A democracia falha se ela permite que alguém que faz ameaças declaradas a sua existência consiga se eleger como líder de Estado. A democracia de um país com mais de 50% da população de negros e pardos falha grandemente ao ter uma lei anti-racismo e não ser capaz de impedir que alguém que já cometeu crime de racismo (temos provas além de convicções) se candidate ao mais alto cargo do executivo.

Nós falhamos grandemente enquanto nação se não somos capazes de formar cidadãos auto-críticos o suficiente pra não cair em histórias contadas sobre kit ou cartilha gay, Foro de SP, pílula anticâncer, ideologia de gênero e mais um milhão de palavras inventadas sobre coisas que não existem. E eu não estou falando apenas sobre cair em fake news. Eu caio em fake news, todo mundo cai, elas são feitas pra gente cair, são pegadinhas que por mais mal boladas que sejam podem enganar a mais bem intencionada das almas.

Mas daí a ter um candidato cujo projeto de governo é um powerpoint com imagens mal feitas, símbolos da foice comunista pra lá, frases de efeito pra cá, afirmações sobre coisas que não existem, e algumas poucas estratégias com soluções simples pra problemas complexos que já deram teses e mais teses de doutorado é um completo desaforo. A gente falhou enquanto país que tem uma constituição que diz que educação é direito de todos e dever do Estado e da família.

Daí agora a gente tá aí desfazendo amizades (nada contra isso, por sinal, sou da opinião de que não devemos deixar a amizade atrapalhar a política), brigando com parentes (porque se vota nesse cara não dá pra chamar de família, não é mesmo?) quando na verdade se você vota nulo, branco, no partido desse cara ou no outro, você está simplesmente exercendo o seu direito por lei, esse sim um direito democrático que nos resta.

Sei que tem uma galera querendo colocar a culpa de tudo no PT, porque se não fosse o antipetismo o fascista não tinha a força que tem. Só que o que o primeiro turno nos mostrou foi que mesmo com o antipetismo à tona, tem gente que acredita no PT e vota nele mesmo assim. Como querer que um partido que é o segundo favorito às eleições abra mão da sua candidatura? É no mínimo uma inversão de valores muito grande… Se isso acontecesse o PT, que tem seu maior líder preso e sem direito a dar entrevistas (mais uma grande falha da nossa democracia), estaria simplesmente cedendo às forças antipetistas que querem mais é que o partido se cale e volte a ser o que era antes de 2002.

Faz parte da democracia aceitar quem vota em cada uma das opções que nos são dadas na urna, o problema é o quanto a gente se esforçou pra garantir que essas opções não fossem ameaças à nossa democracia. Pra mim a falha está aí. E é nesse ponto que a democracia já falhou.

Na votação do primeiro turno eu me senti pressionada pelo “movimento voto útil”. Poxa, se você diz que “vai de voto útil” isso implica que existem votos não úteis? Mas se no nosso sistema eleitoral não existe peso esse pensamento não se fecha, não num primeiro turno onde você tem mais de duas opções. Quase entrei na onda do “voto útil”, mas no último segundo eu resolvi exercer o direito de escolha que me resta e fui feliz de 50, com um candidato que defende minhas ideias e uma vice que é tudo aquilo que eu sonhei pra gente. Nós, que falamos tanto de inclusão, que gostamos tanto de tomar decisão pelas minorias, deveríamos tentar eleger as minorias pra nos representarem e representarem elas mesmas também, que tal? Fiquei emocionada ao ver a Sônia Guajajara na telinha da urna e deixei lá meu voto útil nos candidatos que me representam. Eu e mais 34 eleitores da minha zona eleitoral. Foi útil pra mim e sei que foi útil pro Guilherme Boulos, pra Sônia Guajajara, pra equipe deles, e espero que pros meus 34 companheiros também!

No domingo eu me senti exercendo o meu direito democrático de votar, mas percebi que isso não é suficiente numa democracia. Estou vendo o poder judiciário tomar decisões que afetam nossa vida diretamente (como abster o candidato da acusação de racismo ou impedir que o Lula dê entrevistas, jogando na nossa cara que ele é um preso político) e me sinto completamente incapaz de agir pra que isso mude. Eu sei que nos disseram na escola que só o voto nos dá o poder de mudar, mas alguém inventou e repetiu essa história muitas vezes até ela virar uma verdade, porque já ficou claro que pra mudar precisa muito mais do que isso. Talvez a única parte coerente dessa frase seja o “só”, pois parece que a única parte em que realmente somos convidados pra participar é no voto, e embora este não seja um texto sobre o problema do sistema representativo (é só mais um grande desabafo na internet, não nego), eu deixo aqui meu convite à reflexão sobre qual modelo de governo a gente deve pensar para o Brasil sair desse caos.