Uma epopeia capilé

Nicolas, um dos heróis da epopeia capilé. Foto: Digue Cardoso / indiocapile.net

Sou um cara que acredita em destino. E, por mais que em clubes do interior ele tenda a ser escrito por linhas tortas, algo me dizia que a tarde de 15 de outubro de 2017 não seria apenas mais uma na história do Clube Esportivo Aimoré. Talvez tenha sido o Lucas dizer que havia sonhado com a pressão após fazermos o 1 a 0, ou o meu próprio otimismo, algo não muito recomendável quando se trata do índio capilé. Não sei, mas de algum modo os acontecimentos que se sucederiam no Cristo Rei não me eram inimagináveis.

Em jogo, uma vaga para competição nacional em 2018 — ou Série D, ou Copa do Brasil. Do outro lado, um Pelotas que vinha exacerbadamente confiante depois dos 2 a 0 do jogo de ida. Dia belíssimo em São Leopoldo. “Promoção” de ingressos. Social cheia, como há muito não se via, e pelotenses também presentes em bom número. O cenário estava posto, cabia aos guerreiros capilés fazerem os 90 minutos de uma vida.

Ao feitio do futebol do interior gaúcho e, ainda por cima, de uma decisão, o jogo começou truncado, com pouca bola rolando. Como previsto, o Pelotas foi cauteloso e fez uso do anti-jogo desde os primeiros minutos. Não me dei ao trabalho de contar quantas vezes os jogadores áureo-cerúleos caíram no gramado alegando sentirem dores, mas arrisco dizer que, apenas no primeiro tempo, em torno de uma dezena. Com o grandalhão Giovani no comando do ataque, os atletas índios não tiveram dúvida: sempre que possível, lançavam na área buscando ou o centroavante ou o artilheiro Marco Antônio. E foi o camisa 9 que, em um testaço após cobrança de falta lateral, acertou o travessão e tirou o primeiro grande “uuhhh” da torcida aimoresista.

Embora o Pelotas praticamente não oferecesse perigo, mostrando inclusive um certo temor e falta de qualidade ao rifar algumas bolas para onde o nariz apontava, o Aimoré não conseguiu exercer uma pressão significativa na primeira etapa. Ao intervalo, a tensão da torcida capilé era evidente: agora faltavam apenas 45 minutos para revertermos a desvantagem. Na volta da frustrante ida à copa (a sagrada Polar tinha findado), comentei com meus amigos que o Arilson — técnico do sub-20 e estreante na casamata do profissional após a saída de Fabiano Borba — deveria ousar desde cedo, retirando um dos zagueiros e colocando um atacante. Talvez por ação do destino, minha sinergia com o comandante aimoresista levou 5 minutos da segunda etapa para se suceder, ainda que por um acontecimento triste. Naqueles clássicos lances de “cama de gato”, nosso capitão Luís Henrique voou por cima do atacante pelotense e caiu de mal jeito no gramado, em cena bastante feia de se presenciar. Falta inexplicavelmente dada para o Pelotas à parte, nosso camisa 3 teve de sair. E seu substituto, o meia-atacante Matheus, entrou para mudar a história da partida.

Refletindo após o jogo, é difícil escolher quem foi o principal personagem da tarde de domingo. De qualquer modo, Matheus é uma das possibilidades. Um cara que já foi bastante criticado por mim, mas que mostrou ter uma estrela danada, uma vez que, 4 minutos após entrar em campo, viu Faísca fazer uma jogada antológica pela ponta direita, se antecipou à defesa e aproveitou o cruzamento açucarado do volante para balançar as redes da cada vez mais histórica goleira do barranco.

Passada a êxtase do primeiro gol, que fez a social gritar “vamo, vamo índio” com uma intensidade que eu nunca havia presenciado, a tensão voltou com força, principalmente porque a bola rodeava a área do Pelotas sem que alguém conseguisse finalizar em definitivo. Olhei para o Mauricio e para o Lucas, sentados uns 3 lances de escada abaixo, e falei “vai dar”. De alguma forma, dessa vez a ideia de fracassar não passava pela minha mente. Até porque, independentemente do que acontecesse, era nítida a entrega dos jogadores aimoresistas. Logo depois de Arilson promover todas substituições permitidas, Douglão, o único zagueiro de origem ainda em campo, sentiu cãimbras. Com uma sinalização, Tiago Alemão disse para o companheiro se adiantar que ele o cobriria. Não bastasse o esforço individual, os jogadores correriam pelos outros se preciso fosse.

Embora Faísca ditasse o ritmo no meio de campo e Digaô destruisse diversos contra-ataques do adversário, os aimoresistas gelaram quando, após jogada pela direita, Rodrigo Vitor chutou mascado e a bola balançou a rede pelo lado de fora, levantando a aquela altura perplexa torcida do Pelotas. Mas, de lúcido, foi apenas isso que o Lobo construiu. No mais, uma catimba que, em parte, é compreensível, mas que atingiu níveis patéticos na figura do treinador Thiago Gomes.

Aos 35 minutos, a Los Reyes, torcida organizada do Aimoré que retornou depois de um longo período inativo, arremessou os famigerados rolos de papel de nota fiscal em direção ao gramado. Um deles teria atingido Gomes, que, no entanto, teve uma reação um tanto quanto escandalosa a esse fato, caindo no campo com as mãos à cabeça e rolando com uma aparência de dor que, combinemos, é improvável que um emaranhado de papel possa proporcionar.

Passada a lamentável cena, a expectativa voltou a tomar conta do Cristo Rei. Cada bola parada era uma esperança, mas a redonda teimava em tomar a direção do gol pelotense. Como é de praxe quando teu time precisa do resultado, o tempo voava. Dois torcedores sentados alguns degraus de escada abaixo se levantaram para ir embora, e um outro torcedor disse, em tom de brincadeira: “Bah, mas vocês vão perder o gol do Aimoré”. Brincadeira, talvez, para ele, porque eu, sem demagogia, ainda acreditava.

5 minutos de acréscimo indicaram a placa do 4º árbitro. Era agora ou nunca. O Aimoré recuperou uma bola no campo defensivo. Matheus, que havia feito o nosso gol, arrancou pela esquerda. “Ok, tenta cavar uma falta ou lateral pro time sair de trás, tem só o Brandão e o Giovani na frente… Tá, se eles não vão te parar, segue em frente… Porra, tá perto da área, manda daí”. Confesso que a partir desse momento não lembro exatamente o que aconteceu, mas, quando vi, a bola sobrou limpa para o Giovani que, em chutaço de canhota que, esse sim, jamais esquecerei, estufou as redes do goleiro Rafael Copetti. Êxtase total. Abracei o Mathias e sai correndo as escadas para comemorar com a gurizada. Algumas lágrimas caíram, confesso. A emoção tomou conta das sociais, cujos alicerces cinquentenários devem ter balançado. O “milagre”, como muitos definiram o que o Aimoré precisava fazer, estava acontecendo.

Ainda restavam alguns minutos, tempo suficiente para o Brandão tentar desferir uma voadora e ser expulso e para um jogador do Pelotas cabecear uma bola que passou raspando o gol do Nicolas, em lance nada agradável para o sistema cardíaco dos aimoresistas. Quando o índio retomou a bola, ainda houve um incentivo para tentar o 3º gol, que decidiria a classificação no tempo normal, mas, nas otimistas previsões pré-jogo minhas e de muitos capilés, o 2 a 0 e as penalidades era o que aconteceria. E assim foi.

O momento era nosso. Não havia como deixar de lembrar das quartas de final contra o Ypiranga — em que também evitamos a eliminação com um gol de Giovani aos 46 minutos do 2º tempo (põe coincidência nisso) — , e acreditar na instabilidade emocional do Pelotas e na capacidade do Nicolas. A goleira escolhida foi a do barranco, esse patrimônio universal para onde, naturalmente, eu e meus amigos nos deslocamos para acompanhar a disputa de pênaltis.

Faísca perdeu a primeira cobrança. Confesso que foi o momento em que mais senti medo. Logo tu, Faísca? Tu, cujo apelido há anos fomenta trocadilhos folclóricos pelas bandas do Cristo Rei. Tu, que é um dos atletas que mais merecia uma grande conquista pelo Aimoré, tanto pelo tempo de clube quanto pela história de superação que o ano de 2017 vem te exigindo. Mas os deuses do futebol, Padre Reus ou o destino não iriam deixar por isso. Na cobrança seguinte, a primeira do Pelotas, Ricardo Bierhals isolou. A partir daí, os seis cobradores seguintes, três de cada lado, converteram. Meu nervosismo era tremendo, e o alívio da cobrança convertida logo era substituído pela aflição quando os áureo-cerúleos superavam Nicolas. Eu não conseguia parar de pensar no fato de que não poderíamos sucumbir agora, em condições que, comparadas à reversão do placar obtida durante os 90 minutos, eram bem mais acessíveis. Digaô, com muita classe, deslocou o goleiro. 4 a 3 para nós. Cabia a Juliano Tatto, lateral-esquerdo do lobo, realizar a última cobrança. Por algum motivo, senti que era o momento que o Nicolas brilharia. Dessa forma, curiosamente não fiquei surpreso quando Tatto bateu no canto esquerdo e nosso goleiro voou para defender. Mas um turbilhão de outros sentimentos explodiu. Me atirei no gramado do barranco, saí correndo como um louco com os braços levantados… estava feito. Se tornava realidade o sonho que por vezes pareceu distante e do qual muitos tentaram descrer para evitar frustações. Estava escrita a epopeia capilé.

Do barranco, minha festa se estendeu ao alambrado e, finalmente, ao sagrado gramado do Cristo Rei, aonde jogadores, familiares, comissão técnica, diretoria e torcida comemoraram em conjunto. Apesar da alegria, talvez eu não tenha conseguido dimensionar com precisão o que comemorávamos. Em 81 anos de história, pela primeira vez o Aimoré estará em uma competição nacional. Um clube que convive com dividas trabalhistas gigantescas e com a indiferença da comunidade, aspectos que volta e meia geram o temor de que a instituição feche. Mas, como diz a clássica passagem do hino, “contigo ninguém acaba”, porque existem algumas pessoas, especialmente alguns torcedores, que não deixarão isso acontecer.

O momento de confraternização dentro das quatro linhas ainda permitiu que eu e meus amigos tirássemos fotos com figuras que, para nós, são ídolos. Afinal, não é preciso ganhar milhões e mover multidões para ser um ídolo. Sustentar família atuando em um clube do interior, com salários e condições precárias, e ainda levar essa equipe a alçar o maior vôo de sua história, são sim motivos para idolatria. E por aí reside uma outra questão muito pertinente, que é magistralmente abordada no livro “11 cidades”, que li recentemente e que foi escrito pelo jornalista Axel Torres, torcedor do “pequeno” Sabadell: o futebol é mais do que apenas um esporte, e a emoção que ele proporciona, a emoção “do hino e do escudo do time, de estar com a sua gente (…) se pode sentir tanto em um estádio com 120 mil pessoas, em um Barcelona x Real Madrid”, quanto em um Aimoré x Pelotas. Portanto, o Aimoré é gigante para quem se importa com ele. E isso é o que realmente importa.

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