Nick Cave & The Bad Seeds — Skeleton Tree (2016)

Existe catarse em todos os lugares, seja na beleza ou na miséria, no esplendor ou na decadência, é possível se maravilhar com sombras e luzes. O novo álbum de Nick Cave é um produto derivado do luto. A melancolia se faz presente em todas as 8 faixas, uma mortalha negra que impregna todas as canções, pairando de maneira hipnótica.
No começo do ano, enquanto Skeleton Tree já estava sendo gravado, um dos filhos gêmeos de Nick, Arthur Cave, morreu caindo de um desfiladeiro próximo a sua residência. As gravações do álbum pararam, a tragédia causou seu impacto, Mark Kozelek e Justin Broadrick escreveram a canção Exodus sobre a morte de Arthur para o álbum Jesu/Sun Kil Moon.
A morte é um tema que desperta a curiosidade de todas as pessoas em algum ponto da vida, quem já sofreu com uma perda intimista sabe o quão sufocante é lidar com o fato de uma pessoa simplesmente não existir mais. Para algumas mortes a ficha nunca realmente cai, é como se você acreditasse piamente que se fosse até a casa da pessoa falecida ela ainda estaria lá como de costume.
Existem muitos outros álbuns antes desse que já trataram com temas de morte e luto, basta ouvir a Carrie & Lowell, onde Sufjan Stevens lida com a morte da mãe, ou Blackstar, a carta de despedida de Bowie onde ele fala sobre seu próprio fim de maneira presciente. A perspectiva íntima de cada pessoa, o twist singular de cada artista em especial é o que faz com que as variadas óticas sobre esse tema sejam únicas. A arte permite ao artista representar seus demônios através da aceitação, mas para condensá-los no formato de uma obra, esses demônios precisam primeiramente serem encarados.
Nick Cave é e sempre foi uma figura curiosa. Tendo acumulado mais de 20 álbuns durante sua carreira, seja com o Birthday Party, Grinderman ou com os Bad Seeds, Cave é um artista prolífico, talentoso e criativo. Ele já escreveu sobre a morte antes, já assassinou personagens em suas canções, já falou de fantasmas e seres imponentes, mas confrontar a morte de maneira crua é diferente. Não estamos falando de personagens em uma prosa lírica sendo mortos por propósitos narrativos, estamos falando da morte e suas implicações reais. Isso fica claro através do disco.
Skeleton Tree é sufocante, a dor de Cave é palpável, sua saudade pelo filho ecoa através do álbum.
A faixa de abertura, Jesus Alone, foi gravada antes da morte de Arthur, e mesmo assim, quando Cave canta sua primeira linha no álbum, “You fell from the sky, crash landed in a field near the river Adur” é difícil não associar com algum simbolismo de purgatório ou reencarnação. Um paralelo aqui é Blackstar, de David Bowie, lançado também esse ano. Com a morte de Bowie em mente o disco ganha outras feições e significados, assim como Skeleton Tree.
A morte não é o principal tema de Skeleton Tree no entanto, e sim o além, a pós vida e sua ambiguidade. Em Jesus Alone, Cave chama pela alma de pessoas para uma espécie de purgatório, já se suas almas alcançam redenção ou queimam no inferno, jamais é revelado. “ I knew the world it would stop spinning now since you’ve been gone. I used to think that when you died you kind of wandered the world, In a slumber til your crumble were absorbed into the earth. Well, I don’t think that any more, the phone it rings no more” Cave canta em Girl In Amber, escancarando suas dúvidas sobre o além, e a saudade que seu filho deixou.
O instrumental é uma evolução natural daquilo que escutamos no último álbum, Push The Sky Away, de 2013. Os acordes minimalistas e a pegada drone atingem seu ápice em Skeleton Tree, providenciando um plano de fundo hipnótico para os lamentos de Cave.
Existem diversos momentos pungentes através do álbum, desde os backing vocals distorcidos em Girl In Amber, ou quando Cave repete (ainda na mesma faixa) que não gostaria de ser tocado. I Need You é o mais perto que você vai chegar de ouvir de um artista chorar em estúdio, o que adiciona uma carga emocional tenebrosa a uma faixa que por si já é devastadora. Já em Distant Sky, Else Torp trás a melhor participação feminina em uma canção de Nick Cave desde Kyle Minogue no álbum Murder Ballads.
Nada na extensa discografia de Cave prepara para a intensidade deste álbum, facilmente uma nova obra-prima na catálogo do artista.
Skeleton Tree é perda, dor, angústia, sufoco e luto. Skeleton Tree é lindo.