Miguel Rio Branco, fotografia documental e estilo pessoal.

“Nos últimos anos eu desenvolvi um trabalho que deriva do fotojornalismo e da fotografia documental. Parto de ideias que são muitas vezes no domínio social, mas em seguida imagens poéticas se desenvolvem e conduzem a um trabalho conceitual. E se essa poética for bem sucedida ela transcende os limites da fotografia documental. É um trabalho interpretativo onde meu inconsciente permanece livre enquanto fotografo.” Miguel Rio Branco

Uma fotografia tem vários níveis de compreensão e entendimento. Algumas são um objeto impresso que pode ser um meio de se guardar lembranças, de se registrar um pedaço do tempo que se foi. A fotografia como recordação de um momento, ou de uma pessoa amada normalmente são imagens mais simples que carregam seu valor por conta da ligação de carinho que temos com o assunto fotografado. Nesses casos a técnica fotográfica e o meio pouco importam. Algumas vezes o conteúdo de uma imagem tende a ser mais importante do que como e porque ela foi criada. Esses instantâneos (também chamados de snapshots) são parte das imagens mais comuns que vemos no nosso dia a dia e são produzidas por todo tipo de pessoa, ainda mais depois da introdução da fotografia digital que popularizou a fotografia como nunca antes. Algumas vezes a fotografia profissional acaba também tendo como seu principal motivo seu assunto, como acontece eventualmente na fotografia documental, no fotojornalismo, na fotografia social e na fotografia de esportes, por exemplo. O estudo da linguagem fotográfica vai além do assunto da imagem, indo fundo na análise das características físicas, formais e dos instrumentos que o fotógrafo utilizou para criar a imagem analisada.

Entre os aspectos físicos de uma fotografia estão se ela foi impressa, qual técnica utilizada para isso, e qual finalidade. Ou se é apresentada numa tela de computador, ou outro tipo de imagem digital. Os aspectos físicos das imagens ajuda a nos dar a noção da existência real a fotografia como um objeto. Stephen Shore (2014, p. 15) comenta sobre isso que:

“Uma fotografia é bidimensional, tem bordas e é estática; ela não se move. Embora seja bidimensional, ela não é, rigorosamente, plana. A fotografia tem uma dimensão física.”

Shore (2014) ainda comenta que a linguagem fotográfica é composta basicamente de quatro elementos fundamentais, que são que que formalizam o que vemos na imagem produzida numa fotografia: a bidimensionalidade, o enquadramento, o tempo e o foco:

“Esses quatro atributos definem o conteúdo descritivo e a estrutura de uma fotografia. Constituem a base de uma gramática visual fotográfica. São eles os responsáveis pelos ‘erros’ de um iniciante: fazer uma foto desfocada ou tremida, cortar cabeças, capturar um momento infeliz. Também são os meios pelos quais os fotógrafos exprimem sua visão de mundo, organizam suas percepções e articulam suas intenções.”

A fotografia documental tende a representar a realidade dos assuntos retratados com o máximo de proximidade, atenção e respeito. Isso a torna muito próxima da linguagem foto jornalística. Porém alguns fotógrafos acabam fazendo um tipo de fotografia documental que foge da busca da representação mais próxima da realidade e imprimem um estilo pessoal à fotografia que produzem, mesmo tendo em seus trabalho muito da linguagem foto jornalística e documental. Miguel Rio Branco (nascido em 1946) que além de fotógrafo é pintor, diretor de cinema, e artista multimídia, entra nessa categoria dos fotógrafos que impõe à fotografia documental sua própria linguagem, ou vice-versa. Sua série de fotografias intitulada “Noturnas“ (Figuras 1, 2, e 3) é uma boa mostra de como ele trata os assuntos documentais por meio de sua expressão pessoal.

Figura 1. Série Noturnas 3, 1991.
Figura 2. Série Noturnas 4, 1991.
Figura 3 Série Noturnas 5, 1991.

Nesse ensaio as ruas, bares e prostíbulos de Cuba são registrados por uma câmera que ao mesmo tempo que se mostra próxima está ali como espectador, não atuando ativamente com os assuntos. A estrutura[1] da imagem formada pelo quadro fecha as linhas, os planos e assuntos criando uma impressão de profundidade e de espaço que nos leva a buscar o punctum[2] de cada imagem vasculhando toda sua superfície.

O quadro formado pelo recorte mostra somente o que está praticamente a mão, tornando as imagens quase táteis. As cores fortes e a imagem um pouco sub-exposta e com muito contraste ajudam a dar impressão de que o que vemos é algo que não deveríamos estar olhando. Somos um pouco voyers e quase convidados não esperados aos locais fotografados. As imagens são ligeiramente borradas, dando uma impressão de movimento muito grande, o que torna o espaço que as imagens mostra ainda mais claustrofóbico, com os assuntos em constante movimento e ao mesmo tempo presos na fotografia estática.

O foco das imagens é muitas vezes no segundo plano, deixando as figuras que aparecem no primeiro plano mais fantasmagóricas, e mais obscuras. A profundidade de foco é curta, e isso somado ao tempo relativamente alto das exposições, gera uma tensão e ajuda a tornas as figuras representadas mais fora do padrão, sem rosto e escondidas em sua falta de nitidez e foco. As histórias contadas nessa série levam a uma narrativa que começa a contar uma história e não a termina. Diferente de uma fotografia documental menos pessoal. Miguel Rio Branco não se interessa em contar toda a história, mas somente o pedaço dela que lhe convém.

Com uma linguagem fotográfica que mescla linguagem documental e jornalística a sua própria linguagem, Miguel Rio Branco consegue gerar fotografias impactantes e ao mesmo tempo se vincular ao mundo da fotografia artística como da fotografia documental, sendo inclusive um dos poucos fotógrafos brasileiros que fazem parte da prestigiada agência de fotografia Magnun.

[1] Partindo do conceito de estrutora fotográfica no lugar de composição, discuido no texto “Forma e pressão” de Stephen Shore (2013): “Eu penso em estrutura ”muito mais que em “composição” porque “composição” e refere a um processo sintético, como a pintura. Um pintor começa com uma tela em branco. Todo ponto que ele cria aumenta a complexidade da obra. Um fotógrafo, por outro lado, começa com o mundo todo. Toda decisão é para criar uma ordem. “Composição” vem do latim componere, que significa colocar no lugar. Um fotógrafo não “coloca nada no lugar” quando cria uma imagem, ele seleciona”.

[2] Punctum é um termo criado por Roland Barthes em seu livro “A Câmara clara” (1984). O termo punctum vem do verbo latino pungere, que significa ‘picar’, ‘furar’, ‘perfurar’. Numa fotografia ele é aquilo que alfineta, que aparece mais, aquilo que foge do que o intelecto vê, é o ponto no qual o corpo de quem vê a fotografia responde a imagem vista: “Como espectador, eu só me interessava pela fotografia por ‘sentimento’; eu queria aprofundá-la, não como uma questão (um tema), mas como uma ferida: vejo, sinto, portanto, noto, olho e penso” (BARTHES, 2002).

Bibliografia

BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

________. Oeuvres completes: Tome III. Nouvelle édition revue, corrigée et presentée par Éric Marty. Paris: Éditions du Seuil, 2002. In: FONTANARI, Rodrigo.

A noção de punctum de Roland Barthes, uma abertura da imagem?. 8ª LUSOCOM. LISBOA, PORTUGAL. 2009.

MACHADO, Arilindo. A ilusão especular. SP, Ed. Brasiliense, 1983.

SHORE, Stephen. A natureza das fotografias. SP, Ed. Cosac & Naif. 2013.

________. Forma e pressão. Revista ZUM, número 3. Rio de Janeiro, Ed. IMS. 2013.

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