O playboy “especialista” em pobreza

Acho que sou como o garoto do filme Sexto Sentido, só que invés de gente morte eu vejo playboys o tempo todo. E eles não sabem que são playboys, até porque cada vez que alguém ousa definir o que é um playboy esses seres iluminados reescrevem trechos de suas biografias para se colocarem fora da definição.

O grupo que mais tive contato são aqueles que se julgam bem sucedidos, merecedores da situação de conforto que desfrutam. Além disso, pregam subliminarmente que qualquer poderia ter o que eles tem, bastaria se esforçar.

— Quer um tênis igual ao meu? Trabalhe!
— Você trabalhou para ter esse tênis?
— Não, mas meus pais trabalharam, logo…

Mas com esse tipo eu já estava acostumado. Inclusive já tinha aceitado que é muito provável que alguém criado num certo isolamento social possa acreditar que a sua realidade é uma boa representação do todo. No fim, acontece em todas as camadas da sociedade. A vida não me preparou para o outro tipo de playboy: o playboy “pobre” ou “especialista” em “pobreza”.

Esse tipo geralmente teve alguma catarse provocada por algum livro, documentário ou professor de história/geografia. Em algum momento ele entendeu que a sociedade é separada em castas, camadas que vivem vidas paralelas que se cruzam em raras oportunidades. Porém ele não pode aceitar a casta a qual pertence. É a boa e velha recusa do chamado da jornada do herói, não é?

Nosso herói, então, conclui que cabe a ele a missão de salvar as castas mais baixas da sociedade já que eles são ignorantes e incapazes demais de fazê-lo por si mesmo. Claro que ele não fala dessa maneira, ele apenas adota um discurso que o coloca como legítimo membro da classe operária.

Esse playboy toma para si todo protagonismo que o pobre possa vir a ter na vida. É ele que reclama da passagem de ônibus, mesmo sem nunca realmente precisado usar ônibus, ele que quer colégios públicos melhores, mesmo sem nunca ter entrado em um. E não é que ele seja formado em engenharia de tráfego ou em pedagogia com mestrado em educação. Ele simplesmente acha que sabe o que é ser pobre porque já ouviu falar, viu uma série sobre isso na Netflix.

[insira aqui a sua onomatopeia de suspiro exausto favorita]

Talvez eu só precise de um Bruce Willys playboy para me ensinar a tolerar esse povo. Porque desaparecer com certeza eles não irão.

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