Minutos de um encontro

Ele estava atrasado e atrasos por mais insignificante que possam parecer faziam minhas mãos suarem. 
 Tentei reprimir a ideia de que ele não quis vir, tentei… Mas o único pensamento que insistia em martelar a minha cabeça era de que ele simplesmente acordou nesta segunda-feira e todo o seu sentimento por mim havia desaparecido. 
 Respirei fundo e deslizei uma mão na outra sentindo as pequenas gotículas de ansiedade verterem pelas minhas mãos. Eu estava nervosa.
 Olhei para a carta de vinhos pela décima vez. Eu já havia decorado os nomes estranhos dos vinhos quando vi o garçom me olhar, rapidamente peguei meu celular e disfarcei com distração.
 Ele, o garçom, deve ter visto esta cena diversas vezes, a garota espera, se distrai com o celular, vai ao banheiro, pede uma taça de vinho e vai embora carregando as frustrações na bolsa. Eu desejei mentalmente que ele não visse esta cena de novo, pelo menos não esta noite.
 Olhei para os meus sapatos pretos de salto fino, combinando com o meu vestido da mesma cor, e me senti um pouco ridícula. O vestido era minha nova aquisição. De tanto a vendedora elogiar dizendo insistentemente que eu estava extremamente sexy, acabei me convencendo e parcelando aquela belezura em três longos meses.
 Comecei a balançar minhas pernas expressando todo o meu nervosismo enrustido. Levantei da cadeira e decidi partir para o próximo estágio, ir ao banheiro.
 Sem olhar para os lados caminhei entre as mesas com os olhos vidrados no chão. Só os levantei quando vi uma mão tocando no meu braço. Era ele. 
 Ele me olhou com aqueles olhos amáveis que pareciam me tocar por inteira, como se não houvesse nada entre a minha alma e a dele. Nos abraçamos por alguns segundos. Segundos necessários para me fazer esquecer do atraso. Ele ardilosamente sussurrou no meu ouvido “Você está perfeita”. Foi um golpe baixo, admito, mas deliciosamente aplicado com perfeição. 
 Agradeci mentalmente a vendedora manipuladora que me fez gastar mais do que eu deveria e ao garçom por ter me entendido com olhares. Sentamos um na frente do outro. Olhei para o garçom como se estivesse recém chego ao restaurante e com sutileza pedi:
 — Por favor, o cardápio.

N.R.S.

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