Sobre flores
– E aquele leito de violetas, onde sempre deitava e imaginava uma vida que poderia, mas jamais seria?
– Arranquei todas! Poderia jurar que estavam podres, contaminando solo fertil e meus ânimos. Já não podia mais…
– Lembrar?
– Lembrar.
– Sente-se melhor?
– De forma alguma, meu amigo! Não suporto a ausência de odor no ambiente e o branco sem graça das paredes. E a maior das desgraças: meus pés fincados ao chão, despersonalizados, como raízes. Ademais, de nada adiantou, pois o problema… ah, não são as flores, mas as lembranças. Quem estava podre era eu.
Quando morrer o veneno do rancor, elas todas florescerão. Mais belas e cheirosas. Intensas, deixando rastros por onde quer que passem. Então enfeitarei meu corpo e meu jardim de violetas e peonias.
Até lá, faço o que posso. Cultivo amor.