Neurose da Luta Diária


Em meados de 1945, vários soldados que lutaram na Segunda Guerra Mundial voltaram para casa. Inclusive brasileiros que cumpriam serviço militar na Itália. Tive a grandiosa oportunidade de conhecer um veterano de guerra que carrega com orgulho o emblema da Força Expedicionária Brasileira. Atualmente, o herói nacional já com 92 anos disse que foi durante os momentos mais difíceis, em meio aos aviões nas frontes de batalha, que sua história realmente mudou. Setenta anos se passaram e as lembranças da juventude conturbada ainda estão vivas:

“Lembro bem que mesmo em meio a mortandade da guerra eu me sentia diferente, me sentia vivo, eu podia ajudar meus colegas e assim o fiz. Quantas vezes lá na Itália preparei o avião para meus amigos e eles nunca mais voltaram. As consequências vieram mais tarde, voltando para o Brasil vi que a luta era bem pior. Sem auxilio nenhum, eu e os outros expedicionários batalhamos para sobreviver. ”

Além das dificuldades ao voltar para o Brasil, os expedicionários sofreram com um mal ainda pior, a chamada Neurose de Guerra. As imagens de bombardeios, gritos por socorro e lembranças amargas permaneceram por vários anos na mente dos ex-combatentes. Um problema praticamente sem cura, algo intrínseco às suas memórias.


“A Lei foi instituída para que a transgressão fosse ressaltada. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, para que, assim como o pecado reinou na morte, assim também reine a graça pela justiça para outorgar vida eterna, por intermédio de Jesus Cristo, nosso Senhor. ”
Romanos 5:20–21

Quando as dificuldades, os desafios, as lutas e aflições são abundantes a Graça entra em ação. O favor imerecido nos envolve em algo tão profundo que não é possível quantificar, ficamos maravilhados com o auxílio e o perdão recebidos e claramente notamos a diferença em nossas vidas. Como se estivéssemos em meio à guerra e ao procurarmos por refúgio encontrássemos um bunker, para esperar o cessar-fogo enquanto estamos em conflito. A Graça é o nosso porto seguro, nosso bunker do dia a dia, que restaura nossas feridas e nos prepara para as próximas.

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. ”
Mateus 6:34

Basta a cada dia o seu mal, pude compreender isso quando conversei com aquele senhor expedicionário. Todos os dias somos bombardeados incansavelmente por todos os lados, seja em nosso físico, emocional, sentimental e até mesmo em nossa fé. Lutamos diariamente para sobreviver, esgotamos nossas forças, doamos nossa vida em prol do que achamos correto. Abrimos mão de tantas coisas para conquistarmos nossos objetivos. São horas e horas de lutas, chegamos ao findar do dia com a “Neurose da Luta Diária”.

Refletimos sobre tudo que fizemos, nossas forças para lutar esvaíram-se. Estamos piores que soldados sem munição. Às vezes mal conseguimos dormir, muito menos acordar com tranquilidade. E todos os dias são assim, desde o nosso primeiro dia na terra até o ultimo. Buscamos enlouquecidamente refúgio, elevamos os nossos olhos para os montes à procura de socorro e infelizmente só enxergamos mais ataques se aproximando.

Nossos enfados são como Winston Churchill descreveu: “Parecem um enorme cão negro”. Esse cão que nos perturba até o último momento. Aprender a lidar com ele é difícil, e consome muito tempo. Tempo esse que não é nas melhores horas do dia. Ficamos cabisbaixos, pensamos em desistir e até tentamos fugir do enorme cão, mas não dá. O “Cão Negro” vem correndo e com um abraço feroz destrói nossas forças e expectativas.

O que nos resta é aprender a conviver com as lutas e sarar as decepções com o tempo, o melhor remédio para tudo, embora deva ser usado em grandes doses para ser eficaz. O próprio Cristo venceu através do sofrimento. Ele veio para o mundo que era seu, mas o seu próprio povo não o recebeu e foi morto como um ladrão, um pecador sem valor algum. Sabemos o resto da história: Ele ressurge três dias depois, como prova viva de que é o Filho de Deus. Transcende a lógica diante de todo o universo, perdoa nossos pecados, restaura nossas falhas e nos fornece munição para aguentar as guerras do dia a dia. Um traficante do bem.

Mas uma coisa Ele pode fazer: remover nossas aflições; e porque não o faz? Ele realmente pode remover nossos problemas, afinal é onipotente. O que não entendemos é o porquê. E são esses “porquês” que movem nosso rumo, que nos libertam.

Para esse caso, uma simples analogia pode servir: O soldado que não participa da guerra é motivo de chacota. A sentença para aqueles que fogem da fronte de batalha é levar para o resto dos seus dias a covardia. Durante a IIWW, sair em meio à guerra era ser reconhecido como antipatriota. O que nos resta é enfrentar os medos e receios, sair em busca dos objetivos sem ter preocupação com a saraivada de balas que o mundo nos aflige. É saber suportar o inimigo, como também estar precavido em tempos favoráveis. Tanto na abundância quanto na necessidade, seja em meio aos combates ou nos períodos de paz.

Enfim, podemos contar sempre com a Graça de Deus para solucionarmos nossos problemas. Conseguimos sabedoria e estratégias para prosseguir lutando, avançando, caindo e levantando, mas sempre persistindo. Não há razão para desistir, não há como desistir.

“Por que es­tás assim tão abatida, ó minha alma? Por que te angustias dentro de mim? Deposita toda a tua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei por seu livramento; Ele é o meu Salvador. ”
Salmos 42:5