O amor não é um sentimento
Aristóteles nos trouxe uma definição magnífica sobre o amor: “O amor é querer o bem do outro enquanto outro”. Sabendo que a definição de amor se tornou muito pueril, eu resolvi por apelar ao pai do pensamento filosófico. Note bem: a frase carrega, como verbo principal, a palavra querer; e isso já refuta parte do pensamento popular referente ao amor. O amor não é um sentimento; o amor é um ato de vontade. Quando decide-se por amar algo/alguém isso tem de ser uma decisão decidida como diria Santa Tereza D’Ávila. Sentimento é efêmero, enquanto a decisão é duradoura. Pela própria etimologia da palavra ‘decisão’ sabemos que há também uma cisão com algo no momento em que decidimos por algo. Ou seja: decidir por amar é, também, cindir com o egoísmo, a sovinice e demais inconstâncias decorridas da falta de amor.
Amar alguém é ter o seu centro focal voltado para essa pessoa, ou seja, você fará o possível e o impossível para agradar o seu amado (a). Você colocará uma roupa bonita para agradar a pessoa amada; falará algo que seja agradável a ela; irá fazer todo o possível do seu entorno para tornar feliz a vida do seu bem amado; jamais medirá esforços por ele (a). Isso decorre do ato de entrega que se faz quando se ama, pois amar também é se entregar. São Josemaria Escrivá tem uma frase que explica bem essa entrega: “Amar é não albergar senão um pensamento: viver para a pessoa amada, não se pertencer a si mesmo, estar submetido, venturosa e livremente, com alma e o coração, a uma vontade alheia e ao mesmo tempo própria”.
Vivemos em uma época onde o pseudo amor-próprio e o interesse é latente, e isso resulta num absurdo egoísmo e, em razão disso, as pessoas consideram desnecessário agradar ao outro, bradando, aos quatro ventos, que você deve ser aceito com todas as suas imperfeições que, para você, são imutáveis — mesmo havendo boa vontade da pessoa que está ao seu lado. Isso acaba sendo um problema, e iremos tratar desse problema com a seguinte analogia: o amor pode ser comparado com uma ferramenta, e essa ferramenta será usada por um artista para esculpir a sua obra; e essa sua obra é análoga à pessoa na qual você ama. Portanto, você irá olhar para essa obra pensando sempre nas inúmeras potências que aquela bela arte pode atingir. Sem o amor, essa obra fica sempre incompleta, pois a sua busca constante será a de satisfazer-se no uso daquela pessoa que está ao seu lado, chegando, por fim, ao total esgotamento de ambos na relação. Mas veja bem: o ato de corrigir ou acrescentar só é verdadeiro e livre de egoísmo quando é feito com despojamento, sabendo que isso não é para o seu bel prazer, mas sim para uma elevação daquela bela alma.
O ato de amar carrega consigo uma enorme liberdade e essa liberdade nos leva ao desprendimento de se entregar inteiramente ao amado (a). Portanto, temos um benefício mútuo quando amamos, haja vista que nos tornamos livres, enquanto o ser amado sente uma elevação em sua dignidade. O homem se fundamenta em três pilares: a vida, a verdade e o amor. Preservamos a nossa vida acima de tudo; buscamos entender a verdade por trás de todos os mistérios universais; e, por último, necessitamos viver em relações com outros seres e essa relação é um compartilhamento de amor e generosidade. Quando se afastamos desses princípios, se afastamos da realidade vivida.
Será que há mesmo a necessidade de amarmos alguém? Sim, há. O ser humano foi feito para o amor, ele necessita amar e ser amado para ser confirmado no ser. Amar é conferir existência ao outro. É o ódio que nasce quando suprimimos o amor. Enquanto o amor confere a vida, o ódio aniquila a existência do outro. Um homicídio, por exemplo, é uma ação movida por ódio terminal para com o outro. Portanto, quando estamos cativando o amor também estamos cativando a vida humana e a sua disseminação como um bem maior.
