Como o excesso de demissões de técnicos gerou análises robóticas no futebol brasileiro

Com razão, virou moda criticar tudo o que acontece no futebol brasileiro. Seja pelo amadorismo dos dirigentes, pela falta de qualidade dos técnicos, o baixo público dos estádios, e de modo geral, pela qualidade do jogo (ou a não existência dela). Porém, esse monte de críticas acabou deixando alguns analistas cegos na hora de analisar. Sem observação de jogo, só se olha a posição na tabela e o tempo no cargo. O mais importante, o desempenho, constatar se há ou não evolução, isso não existe. É mais fácil não assistir aos jogos e analisar com comentários prontos.

O tema me veio a mente nesta semana, quando Levir Culpi foi demitido (e depois desdemitido) do Santos. Antes de Modesto Roma mudar de ideia, os analistas de plantão trataram como absurda a saída do técnico que prefere rachão descontraído ao invés de treino na véspera de jogos importantes, e quando treina, foca nas bolas aéreas. Os argumentos chegam a ser constrangedores de tão robóticos e no fim das contas, contraditórios. Os defensores se baseavam na posição do time na tabela, no fato da equipe ter alcançado as quartas de finais da Libertadores. Ou seja, RESULTADO. É só o que importa para os mesmos analistas que adoram criticar o baixo nível do nosso futebol ou a falta de atualização de nossos técnicos. Ora, vocês defendem um TREINADOR que NÃO TREINA, um senhor que nunca fala de JOGO em suas coletivas, sempre escapa das perguntas com frases engraçadas ou algo do gênero, então não queiram cobrar jogo bonito e ideias arejadas dos nossos comandantes.

É vexatória a vontade dos analistas de sempre querer jogar a culpa dos péssimos trabalhos de nossos técnicos nas costas dos dirigentes (que também são péssimos). Entendam, tempo de trabalho não significa sucesso e resultado, não significa satisfação.

Veja bem, Roger Machado, técnico que eu admiro, estudioso e trabalhador, com boas ideias, fez péssimo trabalho no caro elenco do Atlético-MG, mesmo tendo bom tempo no cargo. Mereceu cair após sete meses em que, em momento algum, conseguiu fazer prevalecer as boas ideias de jogo vistas em seu Grêmio de 2015.

Ou seja, a análise não deve ser pautada em tempo de trabalho ou retrospecto. A análise deve ser pautada no DESEMPENHO da equipe, em enxergar ou não uma evolução naquele time, se o treinador, mesmo que aos poucos, está dando uma cara aos seus comandados e se isso pode ser promissor.

No caso de Levir, quem assiste aos jogos do Santos sabe que já passou da hora do senhor ser demitido. Seu não tem menor noção tática, afinal ele não treina para isso. Seus únicos artifícios são a velocidade de Bruno Henrique, os milagres de Vanderlei e o estrondoso ano de Lucas Veríssimo. Não há compactação, a equipe defende mal, cedendo sempre, diversas chances de gol ao adversário. É uma equipe sem ideias, pobre, que não sabe o que fazer com a bola a não ser correr e chutá-la para o companheiro mais próximo da área adversária. Do ponto de vista tático, é constrangedor ver o Santos de Levir Culpi jogar.

E mais, na Libertadores, onde os defensores baseiam seus argumentos, Levir Culpi só comandou o Peixe a partir das oitavas de final, mais precisamente, quatro jogos. Dorival Júnior, de trabalho ruim em 2017, foi quem classificou o time na fase de grupos. O jogo contra o Atlético-PR no Paraná foi maluco. O Santos saiu atrás e teve seus méritos em juntar forças e marcar três vezes fora de casa. Eu diria que o Santos de Dorival não viraria aquele jogo. Na volta, o desempenho foi abaixo da crítica. Os visitantes, em plena Vila Belmiro e de técnico recém chegado, dominaram completamente as ações e só não venceram pois Vanderlei estava em uma de suas noites mais inspiradas. Contra o Barcelona, novamente dois desempenhos constrangedores. Fora de casa, o time só se defendeu e achou um gol em bola parada. Na volta, a estratégia, admitida por Levir, era jogar pelo empate. O resultado todos sabemos: vitória equatoriana e partida medonha do Santos, que mesmo em sua casa, não levou perigo ao goleiro adversário em momento algum.

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