A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola

O poder da imagem e som orquestrados por Francis Ford Coppola.

Nos primeiros anos da década de 70, o movimento da Nova Hollywood já começava a ganhar seus grandes representantes entre os envolvidos, Francis Ford Coppola, sem dúvidas, foi o maior. Com o sucesso de público e crítica da sua adaptação cinematográfica do best-seller O Poderoso Chefão, Coppola enfim teve a oportunidade de realizar sua primeira obra com total controle criativo em seu A Conversação, dando um vislumbre do poder autoral que veríamos ganhar força em seus trabalhos seguintes. Esta é também uma das obras mais influenciadas pelo cinema europeu (Michelangelo Antonioni e Alfred Hitchcock, para ser mais preciso) que o cinema norte-americano lançara na época, logo seu cineasta passou a ser visto como um legítimo auteur como tão almejara.

Seguindo os moldes dos filmes com temáticas sobre conspiração, muito devido ao clima paranoico da época com o recente escândalo político conhecido como o caso Watergate, que ainda renderia o clássico thriller Todos os Homens do Presidente algum tempo depois. A Conversação trata sobre Harry Caul (Gene Hackman), um técnico de vigilância privada, bastante reconhecido por seu grande talento com espionagem e sua inabalável ética profissional, mas que acaba pondo sua carreira e vida em cheque quando descobre que seu último trabalho poderá causar o assassinato dum casal de jovens.

Harry Caul é um homem solitário, embora tenha amigos e uma aparente namorada, sua insegurança em confiar nas pessoas o torna uma figura bastante introspectiva e desolada, restringindo-se a uma vida metódica. Tão dogmático que como também religioso, detesta ver Deus sendo utilizado em vão nas mais comuns expressões populares. Afastar-se do mundo em si não o deixará protegido do próprio, na verdade, somente o oprimirá. Na sequência de abertura, uma panorâmica abrange todo um parque deveras movimentado, aos poucos a câmera se aproxima e fecha nos sujeitos essenciais em cena, esse exercício visual de Coppola exemplifica a sensação claustrofóbica que Harry Caul conhecerá ao longo da película.

A tormenta de Caul provocada por sua suspeita em volta do destino daquele casal que espionara o absorve numa crise paranoica constante. Logo começar a desconfiar severamente de todos que conhece, principalmente os seus colegas de profissão (os quais já não era tão próximo), afinal como dizia Alan Moore em sua graphic novel Watchmen: “Quem vigia os vigilantes?”. Sua busca pela verdade o leva a uma jornada com destino aos próprios demônios que carrega consigo, pois um trabalho seu no passado que causara algo absurdamente trágico e, obviamente, acabou assumindo a culpa disso.

Num monólogo durante certo pesadelo seu, solta a frase “Não tenho medo da morte. Tenho medo do assassinato”, Caul teme as consequências assombrosas que provoca em seus envolvidos. Esse sentimento que pesa na sua consciência por muitos anos emerge ainda mais sabendo que seu “erro” se repetirá. A presença da garota que vigiara nessa sequência onírica justifica-se como um eco dos fantasmas de seu passado. Parece algo digno do catolicismo presente no cinema de Hitchcock, onde a culpa atormenta seus personagens e suas sinas estão marcadas pelos seus pecados. Nesse caso, a ausência de ação por parte de Caul. Seu medo também desprende-se da morte imaterial, pois, na verdade, possui o horror pelo homem em si e o que pode fazer.

Para materializar na tela o sério dilema de seu protagonista, Coppola conta com o talentoso montador/editor de som Walter Murch, que ainda realizaria algo tão primoroso quanto em Apocalypse Now. Claro que o montador Richard Chew tem sua importância, mas o trabalho poderoso de Murch é o que torna o âmbito de seu diretor um sucesso. A Conversação trata sobre as dissociações entre imagem e som através da investigação de Harry, ouvindo repetidamente conversas gravadas para tentar reconstruir estes momentos com sua imaginação.

Poderia se relacionar facilmente com Blow-Up — Depois Daquele Beijo do italiano Michelangelo Antonioni, ao invés da descoberta e investigação sobre o poder da imagem, Coppola expande aqui o potencial do som, amplificando seus significados quando aliado a imagem na profundidade de campo. São dois elementos que se confundem e fica a cargo de Harry para os darem algum sentido, criar um diálogo pleno, essa é a relação subjetiva que cria a ligação com o espectador e assim o roteiro escrito pelo próprio Coppola consegue aproveitar suas reviravoltas, realinhando todos os fatos embaralhados.

Walter Munch tece a atmosfera que embala toda a obra através de seu exímio tato com sons, já nos primeiros minutos, constatamos sua habilidade ao ter conseguido compôr um complexo ambiente sonoro, onde dezenas de vozes se entrelaçam numa teia complexa de disfunções sônicas. Murch abusa de sons diegéticos para utilizá-los como a trilha sonora das tensões do protagonista. O som, às vezes, até parece um fator extracampo, invadindo o filme para perturbar o silêncio existencial de Harry Caul. Este silêncio pincelado como o pleno vazio na vida deste personagem, digno de realizações de Antonioni, é tão intenso e perturbador quanto qualquer cacofonia.

Em poucos momentos, Harry Caul entra num estado de meditação enquanto toca o seu saxofone, pois na melodia do jazz que encontra sua paz interior. Hino apaixonado da melancolia e solidão, ele entoa as composições desse gênero como um sincero suspiro de sua alma. Então, no fim, após ter quase sido “asfixiado” por sua extrema paranoia e sentimento de culpa que Coppola resolve abrir o escopo, e num contraponto com a claustrofóbica sequência de abertura, dá espaço para finalmente seu personagem respirar após ter se ter se entregado ao desespero.