Duas ou Três Coisas Sobre Ela #01: Vidro, dirigido por M. Night Shyamalan

Diante da crença do extraordinário no mundano, o cineasta M. Night Shyamalan fez aqui talvez seu filme mais religioso até o momento. São duas horas de um embate sobre fé pensando nos super-heróis como os mitos da sociedade pós-século XXI. Isso acontece no sentido literal mesmo também, de certa forma, pois na forma como ele santifica David Dunn (Bruce Willis) e imerge nas sombras a Besta (James McAvoy) como um demônio numa pintura cristã. E é importante que seus personagens falem, deem seus testemunhos diante de um close-up, enquadramentos fechadíssimos nos rostos que não deixam o espectador desviar o olhar ou escapar das verdades que são ditas.

Shyamalan tem uma obsessão aqui na forma como contamos e ouvimos as histórias ao longo das eras, com a ficção fazendo sentido a nossa realidade e experiência de vida. O filme em si participa de uma trilogia sobre histórias, Corpo Fechado e Vidro possuem tons mais religiosos onde os quadrinhos são manuscritos bíblicos e seus personagens citam gibis como se fossem passagens de textos religiosos para dar razão às suas crenças. E Fragmentado, por sinal, é uma fábula da Bela e a Fera, um conto de fadas distorcido. Ambos tratam de narrativas que contamos e compartilhamos desde que aprendemos a fazê-las. Algumas acreditamos, outras não. Em tempos de pós-verdade e subjetividades tratadas como realidade concreta, isso torna o texto do filme ainda mais interessante sobre como a ficção molda a nossa crença e a realidade.

No mais, a religião de Shyamalan é o cinema e sua fé está em crer nas imagens como a mais pura demonstração de verdade. O final em si é metalinguístico neste ponto, quando ele utiliza as diversas telas e câmeras de vigilância do espaço onde a ação acontece para nós fazer acreditar em seus personagens. Seu desfecho soa como um comentário sobre como os super-heróis tomaram conta do nosso imaginário contemporâneo pela imagem, seja no quadrinho, seja no cinema, seja na TV ou até no celular.

Em “Vidro”, a verdade cinematográfica de Shyamalan é: Ver é acreditar.