O Abismo Prateado (2011), de Karim Ainouz

Olhos nos olhos.

O cinema de Karim Aïnouz sempre se tratou do deslocamento, onde corpos estão suspensos em espaços os quais não se encaixam. Madame Satã abordava isso da forma mais íntima e física possível, interiorizando esse conflito, enquanto O Céu de Suely o materializou em ideais exteriores, por fim, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo procurou criar paralelos entre o ato de se deslocar e se encaixar, ou melhor, reencontrar o próprio eixo do curso da vida. Agora em seu novo trabalho, O Abismo Prateado, parece querer procurar um desapego desse sentimento através da canção “Olhos nos Olhos” de Chico Buarque.

Uma vindoura tempestade, anunciada por trovoadas, surge na sequência de abertura, a chuva logo chega dilacerando as águas como balas duma metralhadora. Djalma (Otto Jr.) sai das águas do mar, passa pelo calçadão da praia e assim caminha para casa. Transa com sua esposa Violeta e após o ato, caminha nu pela casa com a sensação de indiferença e cansaço expressos em seu corpo. Entrega respostas vazias às perguntas de Violeta (Alessandra Negrini) e só a beija pelo vidro do banheiro, embora habitem o mesmo espaço, suas consciências não conseguem dialogar mais entre si. Violeta não percebe esse distanciamento, repleta de otimismo, nem um pouco consegue compreender que talvez haja algo de errado em seu casamento.

Se há algo a ser entendido sobre a leitura que Karim Aïnouz realiza em cima da letra de Chico Buarque, está nessa relação de ideal e idealista. Sendo dentista, Violeta está sempre com um leve sorriso impresso no semblante de seu rosto, encarando a vida com uma simpatia e descontração. Tanto seu casamento quanto sua vida parece algo inabalável aos seus olhos. Quando Djalma parte numa viagem para Porto Alegre e, logo após, revela que não voltará mais para casa através duma mensagem de voz pelo celular, Violeta entra em estado de choque. A separação repentina decidida por Djalma desaba o seguro mundo idealista de sua esposa.

Os elementos da sonoplastia logo começam a buscar absorver e oprimir Violeta através dos ruídos da cidade, sua voz se perde em meio aos sons diegéticos por onde passa. Até ganha um corte em sua testa, após certo acidente com sua bicicleta enquanto pedalava inconscientemente pelas ruas, tentando desesperadamente encontrar alguma resposta para o que parece ser o fim de sua vida como conhece. Uma lembrança de que as coisas ainda levarão um tempo para cicatrizar, enquanto isso não chega, começa então a tomar sorvetes como se pudesse dessa forma anestesiar sua dor. Absorta num abismo dentro da sua própria consciência, ela começa a vagar por diversos lugares do Rio de Janeiro, assim iniciando sua peregrinação por essa via-crúcis para superar sua dor.

Seguindo a melancolia presente na melodia da canção, o cineasta mantém sua linguagem narrativa próxima ao fluxo da consciência de Violeta, enquanto tenta compreender sua nova realidade, “dançando conforme a música” por assim dizer. A câmera fecha em seu rosto e a acompanha por boa parte do filme. Com ela “colada” em seu corpo, Aïnouz parece querer que o espectador dialogue diretamente com a torrente de sensações que sua protagonista passará, criando uma imersão plena. E os movimentos da sua steadicam, que praticamente flutua no ar, soam até poéticos com sua ausência de gravidade. O cuidado existente na mise-en-scène em tentar conectar Violeta ao mundo externo, o qual ela já se desligara, só contribui a isso. Em certos momentos, parece uma exteriorização de seu espírito ainda em processo de reconstrução. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr. apenas pincela as passagens de emoções, por exemplo, a frieza azulada acompanhando um desolado Djalma no inicio do longa, as cores estourando quando surge o desespero de Violeta e a harmonia entre tons no seu encerramento.

Na ruptura entre o ideal do casamento e a idealista Violeta, a peça-chave para resolver isso está quando esta retorna a sua própria casa, após ter recebido a traumática notícia de Djalma sobre a separação. Violeta procura pregar imediatamente um espelho na parede, a fim de procurar olhar a si mesmo. Esse o exercício de reflexão ainda se repetirá outras vezes na jornada da protagonista. Primeiramente, na taxista que fala com Violeta, dentro do seu veículo, como se estivessem numa sessão de terapia, onde lá está desaparecida nas sombras, deixando esta mulher falar por ela mesma. E no terceiro ato, Violeta se dirige a praia, o mesmo local onde seu marido visitou antes de tomar a decisão de larga-la, logo se supõe que ali deve encerrar seu ciclo, precisamente. Então Nassir (Thiago Martins) surge, ao lado de sua doce filha, este um pai que procura reerguer-se após também ter passado por uma separação. É a representação perfeita para a protagonista, enfim, conseguir encontrar sua paz, conhecendo a força de vontade desse rapaz em ter alcançado a segurança para poder seguir em frente, ela acaba se espelhando em sua história, o vendo como um duplo. Dessa forma, encontra a sua tão sonhada luz no fim do túnel.

Nos minutos finais, Karim Aïnouz concretiza o desapego de Violeta ao vermos ela se despedir metaforicamente de seu passado num aeroporto vazio. Finalmente com sua dor cicatrizada, caminha pelo calçadão de Copacabana de braços abertos e pés descalços, sentindo em sua pele a brisa da praia como uma criança ingênua que está conhecendo o mundo pela primeira vez, enquanto sol já nasce ao horizonte anunciando um novo começo. Este, então admirado por outra perspectiva ao mesmo tempo: a câmera que navega pelas estradas junto com Nassir, indo embora carregada com o sentimento de poder se encontrar num lugar melhor que tanto almeja. Onde sua vida estará refeita, assim crer.