O Portal do Paraíso (1980), de Michael Cimino

Quando a história humana torna-se épica.

Entre os diversos mitos que compõem a história do cinema estadunidense, Michael Cimino é um daqueles relegados a praticamente o inglorioso esquecimento. O motivo principal por isso deve-se, de início, ao fato do seu grandioso fracasso em termos financeiros com o épico O Portal do Paraíso, onde lucrou nas bilheterias apenas 2% do seu absurdo orçamento para a época de 44 milhões de dólares. Assim ficou marcado como uma ambiciosa estrela ascendente que quis tanto alcançar o Sol que, no fim, acabou esfacelado no chão do limbo de Hollywood em meio a outros tantos artistas, provavelmente, tão virtuosos quanto, mas que igualmente foram despedaçados pelas próprias engrenagens da indústria. Felizmente, por poucos, ainda é lembrado como um dos mais notáveis cineastas que o cinema norte-americano teve durante os últimos anos da Nova Hollywood, claro que enquanto realizador de verdadeiras obras que buscavam obter a mais pura essência do que definiria para si a sétima arte: o espetáculo da vida humana.

Para conseguir tal feito aqui, Cimino procurou recontar um triste capítulo da história de seu país, expondo uma das suas maiores mazelas através da cruel força do capitalismo selvagem. O tal evento contado no longa-metragem trata-se da Guerra do Condado de Johnson, no final do século 19, causada por uma associação de rancheiros que contratou um considerável exército de mercenários para ir contra uma pequena comunidade de imigrantes eslovacos, considerados como um grande problema a ser resolvido, devido à ocupação de terras e a falta de estrutura para abriga-los, fora os que ainda viriam por consequência destes. Com o iminente ataque, houve o levante desse povo imigrante, tornando isso numa sangrenta guerra civil. O comentário social que dá para ser extraído primeiramente, fala sobre a clara noção duma minoria sendo oprimida por figuras de grande poder econômico, aristocratas que podem e consideram justo que possam tomar responsabilidade de graves ações sem haver represálias de seu governo, que de certa forma, os apoia. Mas há também um comentário histórico nisso, imigrantes sendo expurgados como se fossem pragas do país é até irônico numa nação fundada por ingleses, estes que já a tomaram do povo nativo, os conhecidos índios. Billy Irvine, o personagem vivido por John Hurt, é o único envolvido com estes poderosos rancheiros que desaprova a ideia do ataque, como uma figura de deboche prova-se sendo o mais lúcido entre eles ao declamar: “Eles não são como os índios, não podemos matar todos”, assim reafirmando o quão terrível esse massacre representa para a história dos EUA. Uma repetição de péssimas decisões provocadas pelo fantasma da intolerância que os perseguem e os fazem cometer os mesmo erros do passado.

Ao recontar um fato histórico de grande escala, o cineasta sabe não que pode perder o valor humano ao contar sua história, então conquista tal coisa através duma perspectiva intimista focada no trágico triângulo amoroso formado pelo xerife estadunidense James Averill (Kris Kristofferson), a prostituta Ella Watson (Isabelle Huppert) e o capataz subordinado dos rancheiros Nathan D. Champion (Christopher Walken). O primeiro, apesar de ser rico, prefere viver numa humilde região e partilhar da mesma situação desse povo composto por imigrantes que seus conterrâneos tanto querem que desapareçam da “América”. Ella é sua atual paixão e maior alegria quando retorna a este lugar, virtuosa e otimista, também demonstra um grau de responsabilidade admirável. E o último, apesar de trabalhar para os aristocratas, Nathan também faz parte da oprimida comunidade, tem um interesse por Ella, pois cresceram juntos. Mesmo com suas constantes demonstrações de sinais de afeto para ela, não consegue fazê-la amá-lo tanto quanto James, este que trata com respeito devido a sua condição como também certo amigo. Pouco socialmente desenvolto devido à sua criação, Nathan se expressa melhor através da violência, para ser preciso, pelo cano da sua espingarda com a qual, logo em sua primeira aparição, arrebenta uma tenda num violento disparo contra um homem que havia roubado o gado dos aristocratas. Esta sequência memorável que remete ao emblemático disparo contra a tela de O Grande Roubo do Trem (1903) é um dos elementos que relacionam este filme ao puro western norte-americano, mesmo parecendo pertencente ao gênero pós-western. Afinal umas das fundações da gênese que originou a atual nação estadunidense é o principal tema aqui, aspecto intrínseco das grandes obras do gênero, assim como personagens flertando com vários estereótipos clássicos do gênero, por exemplo, o personagem de Kristofferson, que, à primeira vista, poderia ser o clássico homem da lei procurando seguir sua própria moral. Mas este é absorto em seus próprios conflitos, diferentes de outros consagrados heróis, a arma não é a extensão do que representa, e sim um meio necessário, pois seu semblante e sua condição enquanto homem é o que lhe define. Por isso talvez seja um dos filmes definitivos sobre o fim do gênero, e nessa temática envolvendo os perigos do capitalismo até acaba lhe trazendo ligações com o pós-western Quando os Homens São Homens (1973) de Robert Altman, assim como O Cavaleiro Solitário (1985) de Clint Eastwood, que viria alguns anos depois.

E com todo esse material em mãos para ser lapidado, só resta a Cimino armar o palco para realizar a composição do seu espetáculo, fazendo jus a construção dum mito “americano” como tanto desejara a sua obra. Conseguindo ampliar o escopo através de suas câmeras, o diretor capta a grandiosidade que necessita através de grandes espaços bem cuidados por uma natural mise-en-scène. Na fotografia, a presença de Vilmos Zsigmond faz realmente a diferença com sua técnica de queimar o negativo, que já havia utilizado para trazer um aspecto visualmente decadente em Quando os Homens São Homens, aqui também expõe essa mesma decadência com um tom de visceralidade condizente ao iminente fim de valores duma sociedade precária enublada e envolta a poeira e madeira. E por sinal, em meio à hora mágica, Zsigmond ainda parece invocar uma aura ainda mais histórica nesse crepúsculo da nação estadunidense. Em momento algum o cineasta limita-se durante a construção de seu filme, sua longa duração no corte ideal demonstra isso, mas o que poderia ser uma experiência maçante acaba sendo uma viagem prazerosa e imersiva. Com uma narrativa brilhantemente bem espaçada, Cimino arruma tempo para contemplar minuciosamente toda a beleza presente em cada cena.

Com a chegada do terceiro ato, num contraponto à sua abordagem intimista, todo o cenário está preparado para o crescente catártico que virá. Só restando ao diretor elevar seu filme para a escala épica que tanto almejava, através do conflito entre os imigrantes e o exército privado dos rancheiros, uma violência carniceira e sanguinária explode trazendo ares duma verdadeira batalha entre gregos e romanos. É numa mistura de gêneros e humores que O Portal do Paraíso é provavelmente a representação definitiva do que significa a sétima arte para Michael Cimino. Brilhantemente multifacetado, é uma obra que explora as diversas formas que tornam o cinema grandioso, marcante e, por que não, atemporal por meio dos mitos e histórias da própria humanidade.