Querido Diário (1)

Hoje fui cordeiro em pele de lobo. Você sabe melhor do que ninguém como já estou acostumado com isso. Bem, desde aquela vez em que percebi a pele que vestia. Mas acontece que comecei a perceber certas coisas em certas pessoas. São em grande parte diferentes umas das outras — as coisas… e acho que as pessoas também — , mas há algo em comum: todos que vejo são como eu. Mostram suas garras, seus terríveis dentes, mas deixam escapar uma felpuda incerteza. É irônico; penso nisso como uma brincadeira que, de tão longa, as pessoas já não sabem que estão nela. Uns copiam outros, que copiam outros mais, que copiaram tantos outros, que copiaram um alguém, singelo, que realmente era lobo. Todo o resto não passa de ovelhas. Porém, como ninguém realmente vê alguém, a definição termina na fantasia superficial. Falei de hoje porque doeu novamente. Doeu ver formas formadas pelo medo da aceitação; pelo molde do aceitável. E o pior nem é isso. O que dói mais é perceber que mesmo sob pelos distorcidamente uniformes, mesmo sob essa ilusória máscara de conforto, as pessoas sabem o que são. Sabem a lã que realmente as cobre. E mesmo assim NÃO. A. MOSTRAM. Mesmo assim decidem que uma pele completamente suja e sufocante é melhor do que a liberdade.

Sabe, Querido Diário, cada vez mais me pergunto se sou a ovelha negra, ou se sou o lobo branco.

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