Autre Temps

Morava numa casa em ruínas, próxima ao rio, ambos vazios, o último e o homem. Beira de estrada, bem na curva. À direita morava um velho que tocava marchas fúnebres no piano, era um coveiro. À esquerda só tinha capim, atrás umas vacas mochas magras e à frente a estrada e mais capim.
O homem não tinha utilidade válida. Era bucólico, feio e solitário, um desgraçado. Bebia cachaça e não queria amar, fingia, era ator, mentira, não o era.
Amava Joana, a filha do coveiro, que por sua vez amava o quitandeiro, um moço pobre da cidade. Ninguém era correspondido.
O homem fumava enquanto desenhava, fazia isso todos os dias, depois ia plantar ou colher margaridas, flores as quais queria em seu enterro, embora ninguém fosse comparecer.
Certa vez dormiu com Joana, após isso não mais desenhava, não mais dormia e as margaridas morreram. Lembrava-se noite e dia. Perdeu-se nos olhos dela cor de rio, naufragava e agora morria. Deixou-se morrer por não querer sobreviver.
Numa noite estrelada sorriu para o céu, leu um poema, tomou banho, jantou e se matou. Sem choro nem vela e sem margaridas. Quem se importaria? Nem mesmo as estrelas.

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