Vida encapelada

O céu aceso, rosa-azul, o mesmo que outrora inundou a sala e iluminou meu rosto com fios dourados de uma felicidade presque plena, hoje murcha o nenúfar que pulsa.
Eu vejo a tinta escorrer opaca pelo véu e os pássaros se afogando pigmentados.
O pulso fraco, estou partindo, mas antes tu partiu-me em partes incontáveis…
Honestamente eu lamento. Lamento ter-te esperado por toda a vida. Meus olhos estão inundados.
Que ninguém entenda os versos cheios de nada que aqui escrevo, que ninguém compreenda o fim, o derradeiro suspiro. E tu, tu jamais entenderás o que se passou pelas minhas veias naquele dia específico. Jamais saberás os pensamentos assombrosos que dormem nas flores que sugam aos poucos meus últimos sinais vitais.
Eu estou enlouquecendo Chloé, os cômodos diminuem a medida que a vida se esvai pelos poros.
Alguém penteia meus cabelos calma e calorosamente, no mesmo instante os remédios embrulham-me o estômago.
O carteiro chegará pela manhã em tua casa numa bicicleta com flores, terá sol no teu céu de tela nova, certamente tu irás sorrir ao receber um envelope tão bonito, azul apagado, mas assim que teus dedos tocarem o papel a tua conexão voltará quase que instantaneamente e tu saberás que a vida escorreu pelos meus pés numa espuma cor-de-rosa claro e o tempo não existirá. 
Tu sentirás algo, não me interessará.

Like what you read? Give Chloé a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.