Calvin e Haroldo vão ao cinema

bill waterson

(O maior sonho de Kierkegaard e o maior pesadelo de Nietzsche são a mesma coisa: uma pessoa normal conseguir escrever seus nomes sem olhar na internet. Isso aqui traz uma maneira completamente diferente de digerir o que não é necessariamente nosso, em distorções feias do que é simples, já que nada mais pode ser simples. A previsibilidade é vista como algo ruim, e a subversão não é mais subversiva por ser a norma. O valor do que é óbvio e real se perde em um egoísmo que quer ser surpreendido pelo mais banal, em vez de gostar do que é banal por ser uma expressão pura.

A apropriação do que é nosso sempre é diferente, e obviamente não há problema com ser diferente. A graça é justamente essa. Criar uma diferenciação cultural por tempo ou geografia partindo-se de uma mesma verdade, ou de um mesmo ponto central cognitivo. Com o globalismo central que é a internet, porém, tudo se torna não o que era, mas o que é, ou o que quem diz que é, é. A dissociação do contexto para o imediatismo de sutilezas puxa coisas que eram suas mas não são mais, pelo mundo não ser o mesmo, e cria-se uma versão feia do que poderia ser visto originalmente apenas pela psicopatia de alguém que enxerga o futuro e não pode fazer nada. A distorção temporal das coisas é natural, mas não quando engole o original retroativamente.

Falar de tempo é sempre difícil por não ser algo palpável, embora seja perceptível. Tudo nele só existe por um momento que depende exclusivamente da nossa maneira de perceber. É fácil mudar o significado de algo através do tempo, mas nunca o momento em que aquele algo foi concebido. O significado é sempre o mesmo em relação a si, embora possa mudar em relação a nós. Nunca muda em relação ao tempo. A reinvenção só pode ser técnica ou transformativa, nunca atualizada. A linearização temporal de arte tira seu foco, que já é, em primeiro lugar, eterno — enquanto nos perdemos em papo de envelhecimento do que não é nosso, sempre estará lá, e nunca será novo, pois não é pra ser novo. Atual, talvez, mas métodos de controle ou análise tão maleáveis quanto algo que literalmente muda a cada momento está sempre fadado ao esquecimento.

Quando a nossa opinião muda sobre algo em um contexto diferente a única coisa que mudou fomos nós. É essa a eternidade da criação: sempre pode ser recorrida, e sempre pode ter um lado novo, mesmo que não tenha sido intencional. Carimbá-la conosco é um auto-centrismo irregular.

A internet permite a carimbação de tudo por ser uma máquina de extirpação das circunstâncias temporais. É sempre imediatista. E sempre fala do que não é de si. Qualquer coisa feita antes da internet não é sobre a internet e não existe na internet. Pode ser registrada, mas não é para ela, no tempo dela, na estética dela, nem para agradá-la. Quando a internet traz algo que não é dela e comenta sobre algo que é dela, nunca pode ser real ou pontual — a sagacidade, portanto, atribuída a quem resgatou, e nunca a quem criou. É uma transformação.

É difícil se manter relevante no que não te comporta. Quando te buscam para ganhar relevância e notoriedade própria, não pelo que foi feito. A forma pode ser lembrada, mas não reproduzida. É diferente. Adaptações são novas coisas, com novas características inferidas. A importância da forma é super e subestimada, quando se perde em vaidades estéticas e quando se é ignorada por mensagens e resumos. O que sentimos jamais é traduzido, e quando traduzimos o que sentimos em outra tradução, já é só uma sombra do que era. A crítica não existe. Ela organiza pensamentos, desperta novos, mas nunca muda o que É. Nós não podemos mudar o que não é nosso, mas podemos mudar a visão disso.

O desespero metafísico e a ansiedade de estar no que não é seu jamais será sentido pelo que criamos, por essas coisas não terem vida. Mas qual seria o existencialismo consciente do que nós fazemos, como é o nosso em relação a quem nos fez? A ausência de significado vem da ausência de nós. E tudo continuando sem nós.)

Ao pegar sua pipoca e sentar na primeira fileira, Calvin percebe:

”Eu não existo aqui, Haroldo.”