Em quem eu estaria pensando?


Sozinho, entorpecido, confortavelmente acomodado, envolto em um som muito alto que toca hits pop dos anos 2000. Distante década, na qual ficou minha adolescência e o registro de cada vivência dos meus áureos anos de confusão, há veras, e mente livre e despreocupada. Envolvida apenas nesses mesmos hits pop que hoje me deixam nostálgico.

Assim me encontro ao abrir o computador como se abre uma geladeira na madrugada. Iluminado pela tela meu rosto envelheceu. Escondido às sombras disfarçava sua humilde formação. De belo e feio, extremidades e meio. A página do Facebook aberta. Do lado aquela dezenas de rostos que sempre me parecem iguais (ainda h’álguns com as cores do arco-íris) e, logo perto, propagandas que nunca realmente vi.

D’outro lado linhas e ícones intermináveis , quais já nem mais penso ao utilizar. No meio uma maçaroca organizada. Programada. Manipulada. Tendenciosamente intencionada. Conteúdo raso, no qual me acho, porque de mim é feito para me satisfazer. Infinito no scroll, uma história sem fim. Sem narrador. Um filmo-retráto amador da vida que a gente quer ver e que a tecnologia nos ajuda a configurar da maneira que assim desejarmos.

Sendo assim, desejo agora não pensar. Desejo me desvencilhar da manipulação moderna que me doutrina. Essa auto criação diária de conteúdo inútil que nos manipula e mutila subliminar mas profundamente. Formulando cicatrizes que escondemos na ditadura do “estar bem”, em cada sorriso coberto de batom, cada calça moderna de moletom, em todo comercial que vejo na TV, em cada programa de auditório, ou série inovadora do Netflix.

Agora, acéfalo, permito me perguntar. Observando essas duas milhares de amizades, em quem, de verdade, estaria pensando, se você não me dissesse em quem pensar. Porque não sei mesmo se queria ver essa cara logo ali, hoje. Acho que nem queria lembrar que estou no grupo de política de qualquer lugar. Não me interessaria pelo conteúdo gerado por algumas dessas pessoas. Não sei nem ao certo se gosto mesmo de viajar, mas é tanta viagem em minha linha do tempo que sinto que não haverá tempo de ser tanta gente e ao mesmo tempo ser eu mesmo.

Quero pensar em quem realmente me importa. Quero ser alguém que não posso contar pra ninguém. Alguém cuja foto não tenha que ser estática. Uma pessoa, não uma ideia de quem eu sou, baseada na percepção de quem não me importa, que por sua vez foi influenciada pela minha própria farsa cotidiana, de viver quem não sou, fotografar o que não sou, vender uma marca de mim mesmo e alimentar minhas percepção com armações auto geradas.

Se assim fosse, eu estaria pensando em… eu estaria pensando… eu estaria… eu!