Não tão divertida, mente

Dois personagens, só, já resolveriam se fosse um longa dirigido pelo Freud. Um todo violentinho e outro “transão”. Mas esse não é o caso. A metáfora para as emoções que regem a existência de vocês, humanos, fica a cargo de Joy, Sadness, Disgust, Fear e Anger (google it). Uma turminha do barulho que apronta altas confusõ… NÃO, isso vai ser como vão anunciar na Sessão da Tarde daqui uns dez anos. Vou tentar fazer melhor.

A dinâmica é mais ou menos a seguinte. Esses bonequinhos mentais trabalham em uma central de controle e vão “controlando” (ah, sério?) nossas atitudes segundo o “sentimento” mais aflorado no momento. Vai indo bem até ai, claro, se você relevar toda a estereotipagem ocidental onde a “alegria” é uma menina linda, branca e magra, e a “tristeza” uma baixinha, gordinha que usa óculos e suéter. MAAAAs, continuando.

Dentro do sistema louco, que rege sua existência, estão também bolinhas coloridas que contém memórias (mais e menos importantes) e umas “ilhas de personalidade”, que são meio que os pilares referenciais da conduta moral. Tudo isso flutuando sobre um abismo escuro do esquecimento. Para onde vão memórias, que não serão mais, e um elefante cor-de-rosa doidão, como todo amigo imaginário deveria ser.

Blá blá blá, talvez tenha ficado confuso, mas meu objetivo não é esse, de explicar o esquema todo. Se quiser saber veja o filme. Meu objetivo é concluir porque Divertida Mente, mente. Ou melhor. Porque vocês, humanóides acéfalos, me forçam a concluir que o filme é uma grande mentira.

Vejamos por este ângulo. Riley, a criança dentro da qual todo o filme se passa, tem os clássicos “first world problems”. O pai consegue um emprego melhor, em outra cidade, mas agora não sai mais do celular. A mãe é perfeita e compreensiva, mas claro que isso nem importa. Eles mudam de cidade e ela perde os amiguinhos. Vai pro primeiro dia de aula e chora na frente de todo mundo. Erra a tacada no treino de hokey. É obrigada a comer pizza de brócolis… bom, da pra perceber que ela tem uma vida bem ruim. Né?

Não? Não achou também? Mas a Disney achou. Achou esse mimimi todo tão sério que, em um curtíssimo período de tempo, Riley vai se transformando, de uma menina doce, em uma ladra desgarrada. A ponto de, por conta desses problemões, se tornarem pó as ilhas da “Zueira”, do Hokey, a da Amizade, a da Honestidade (lembre dessa) e, quase, a da Família.

Ou seja, o argumento é que se você pegar uma criança de onze anos e colocar ela em um contexto minimamente inseguro, FODEU. Ela se torna, do dia pra noite, em um ser sem sentimentos, amigos, com personalidade vulnerável e, principalmente, desonesto.

Aqui é o turning point deste textão. IMAGINA, se a Riley na real fosse brasileira. E fosse um menino. Negro. Nascido dentro de uma favela qualquer. De uma mãe analfabeta que antes pariu três e depois ainda mais dois. Orfão de pai. Que passa todas as noites de chuva acordado porque a água entra no barraco por cima e por baixo. Um molequinho que nunca brincou de hokey, só de “polícia e ladrão”. Imagina se ainda por cima as ilhas dele, as primeiras e mais puras, tivessem como referêncial os meninos mais velhos do tráfico e as bofetadas que leva da mãe, da vó, da tia, do dono da venda, dos irmãos mais velhos, dos namorados da mãe…

Quer dizer (não se assuste, aqui vai parecer uma “viagem”, mas não é). Os mesmos 87% da população do nosso país que vão gargalhar e chorar assistindo esse filme (dizendo: “NOSSA, genial!”), são os que vão bradar de alegria se a Maioridade Penal baixar de 18 para 16 anos. Porque a Riley, que é branca e gringa, pode se tornar desonesta depois de uma pizza de brócolis, mas os meninos negros e pobres do Brasil, não. Estes tem que pagar. Nem importa como. Mas eles tem que pagar!