Por que fazemos merdas?

Há 50 ou 100 mil anos, nós vivíamos em cavernas. Não era uma época legal para se viver. Você tinha que caçar a própria comida, era frio pra caramba e todo mundo cheirava mal. Por sorte, a Natureza (substitua Natureza por Deus, Alá, o Cosmos, ou o que você acredita que criou esse negócio todo), em sua infinita sabedoria, nos deu ferramentas muito úteis para lidarmos com todas essas dificuldades. Nos deu braços pra atirar lanças, pernas pra fugir dos predadores, cinco sentidos pra gente ficar sempre ligado em tudo e um computador para controlar todas essas engenhocas.

Muito bom, né? O olho avisa o cérebro que tem um tigre por perto, o cérebro pensa um pouquinho (alguns centésimos de segundos) e diz pras pernas, “mano, um tigre! Corre, maluco!” Isso funciona bem, mas ainda assim era muito ruim de se viver.

Ninguém ia querer que mais gente vivesse num ambiente tão hostil. Pra que, né? Outras merdas aconteciam por lá também: Se você conseguisse comida, ia ter gente querendo a tua comida, e eles não iam pedir por favor. O cara ia tentar tirar a comida de ti e, se precisasse, te dava uma paulada na cabeça. Era cada um por si.

Como ninguém ia querer mais gente vivendo por lá e como tudo que tinha sido criado ia acabar se acabando, esse criador que falei lá em cima deu um jeito: concebeu o piupiu e a pepeca, e fez com que o contato entre o piupiu e a pepeca fosse agradável, muito agradável. Alguns dizem que é a coisa mais agradável de todas. Ele (ou Ela) também ligou a xereca e o pinguelo num sistema complexo que não vou explicar aqui. Com esse sistema, o contato agradável fazia com que mais gente aparecesse. Todo mundo queria encostar o piupiu na pepeca ou o contrário. Assim, a coisa não acabava mais.

Caramba, isso sim é visão de futuro.

Mas, como se esse mecanismo não fosse brilhante o suficiente, quem criou isso tudo teve mais uma idéia maravilhosa. Bom, foi uma boa idéia, em certo sentido, mas acabou causando alguns problemas a longo prazo. Quer dizer, trouxe problemas pra caramba. Pra mim e pra você e pra todo mundo. Peraí que eu já explico tudo.

Sabe aqueles apps que já vêm instalado quando a gente pega um celular novo? Ou aqueles programas que vêm com o Windows num computador novo e ninguém usa? Poisé, o Cara Lá de Cima, ou o Big Bang, ou Shiva, resolveu botar uns programinhas pré-instalados no nosso cérebro. Esses aplicativos ajudavam as pessoas a continuarem vivas (apesar de que, mesmo assim, elas morriam com uns 30 anos… a vida era dura!) Alguns desses apps simplesmente mandavam a pessoa fazer coisas dependendo da situação. Por exemplo, tinha um que dizia assim: “Quando você encontrar alguma coisa doce, coma o máximo que conseguir”. Faz todo o sentido: açúcar é energia e, quanto mais coisas doces as pessoas comessem, mais energia elas teriam pra enfrentar aquele mundo terrível. Quando um quitute aparece na sua frente, você tem que aproveitar ao máximo. Outro programinha desse tipo era um que dizia, “se for atacado, se defenda”. Pra gente hoje parece óbvio, mas, naquela época, meu velho, esse programinha salvou muita gente.

Uma coisa curiosa é que os que tinham pepeca receberam aplicativos diferentes dos que tinham piupiu. Era quase tudo igual, mas alguns programas tinham funções diferentes. Faz sentido pra mim. Se os corpos eram ligeiramente diferentes, a unidade de controle também devia ser (ainda que ligeiramente) diferente. Por exemplo, todos eles tinham o programa que mandava “cuide de seus filhos”. Claro, como não pensei nisso antes? A idéia de esfregar o pinto na xoxota pra fazer mais pessoas era ótima, mas, se ninguém cuidasse dessas novas pessoas quando elas ainda não conseguiam caçar sozinhas, eles iam morrer à míngua. Mas a forma como o programa mandava cada um a cuidar do filho era diferente, já que corpos diferentes ofereciam aptidões diferentes.

Bom, até aqui é só sexo, terror e mortes violentas. Mas as coisas começaram a melhorar. Com esse baita computador dentro da caixa craniana, e com os programinhas instalados, as pessoas da caverna começaram a criar coisas pra melhorar sua vida. Criaram a linguagem, aprenderam a conviver sem se matar e criaram ferramentas. Assim, a coisa foi indo. A partir daí, vocês já sabem, mas vai o resumo: teve a Mesopotâmia, teve Grécia e Roma, teve Jesus, teve a Idade das Trevas, teve a Revolução Francesa, teve as grandes guerras e a bomba atômica. Hoje, tem a Internet, e não se sabe onde isso vai parar.

Melhorou bastante, não?

Agora quero mudar de assunto. Quero voltar ao que falei ali em cima: o problema que esses malditos apps pré-instalados no cérebro nos trouxeram. Antes, deixa eu dizer uma coisa: o computador e os programas instalados que os homens da caverna tinham são os mesmo que nós temos. Existe algumas mínimas diferenças, já que, para serem iguais, as cópias de novas pessoas teriam que ser perfeitas, e cópias perfeitas não são possíveis por causa de um negócio chamado mutação genética. Mas isso é outro assunto que, na prática, é exatamente a mesma coisa.

Agora, acho que você entende o que eu quero dizer. Temos as ferramentas que fez com que as primeiras pessoas sobrevivessem num mundo hostil, mas usamos essas ferramentas num mundo completamente diferente. Em outras palavras, usamos as ferramentas erradas. Nosso cérebro está errado, sacou? Isso nos causa problemas e mais problemas.

Quer exemplos? Lá vai. Lembra daquele programa que manda as pessoas comerem o máximo de açúcar possível? Pois é, ele existe até hoje. Mas hoje a gente não precisa mais dele, porque temos muito e muito açúcar à nossa disposição. Em qualquer momento, o aplicativo vai estar lá, ligado, te dando a ordem: coma açúcar, coma açúcar. E nós comemos. O mesmo acontece com gordura e comida em geral. Comemos muito mais do que precisamos porque nossos antepassados precisavam dessa ordem do cérebro pra sobreviver. Hoje em dia, esse aplicativo que não desliga nunca nos faz engordar, ter as artérias entupidas, problemas de estômago, e ainda traz dor e sofrimento a milhões de pessoas.

E aquela outra instrução, “quando for atacado, defenda-se”? Isso faz sentido hoje em dia em algumas situações muito específicas. Se você é um profissional de forças de segurança, você vai usar isso a seu favor. Acontece que o aplicativo continua lá, ligado o tempo todo, pra todo mundo, gastando bateria e fazendo a gente fazer merda e sofrer. Se o colega do cubículo ao lado critica o seu trabalho, você se sente atacado e vai se defender. Talvez com um “vai se fuder” ou alguma coisa do gênero. Esse programa trabalha em conjunto com outro que se chama orgulho, e uma coisa alimenta a outra. Claro que o seu colega também vai se sentir atacado, e daí a merda tá feita. Se o aplicativo estivesse desligado, você ia usar a energia para analisar o conteúdo da crítica, se fosse relevante a usaria para o futuro, se não fosse apenas a dispensaria. Assim todo mundo ficaria feliz, ninguém perdia o trabalho e nem os dentes.

Já aqueles programinhas que são um pouco diferentes para homens e mulheres, esses mesmo, meus amigos e minhas amigas, ferram com a gente. Esses são os que dão tela azul quando o sistema está em modo relacionamento. Nem vou falar sobre eles aqui, esses merecem um, ou vários, artigos à parte.

Mais uma coisa. Tem um outro aplicativo sobre o qual quero falar e que todo mundo conhece: o medo. Cara, o medo. O medo é importantíssimo pra gente. Estatisticamente, pessoas menos medrosas morrem mais cedo. O medo de apertar o pé no acelerador, o medo de subir numa escada de três metros, o medo de entrar num beco escuro tarde da noite, tudo isso ajuda a gente a viver mais. Mas o medo também prejudica. O medo de se relacionar, o medo de ter câncer, o medo de abrir o próprio negócio, o medo de falar coisas que precisam ser ditas, nenhum desses traz benefício algum. Pelo contrário, trazem ansiedade, que leva a depressão, que leva ao sofrimento. O medo é tão sacana que talvez não me deixe publicar esse texto que estou há algumas horas escrevendo, por medo do que as pessoas vão pensar.

Daí você me pergunta, e eu também te pergunto: E agora? Dá pra mudar isso? Dá pra desligar ou desinstalar os aplicativos? Dá pra agir de uma forma diferente da que fomos programados? Olha, dá pra lidar com isso tudo. Dá pra APRENDER a lidar com isso tudo. Não é fácil, nem agradável. Algumas vezes você tem que agir contra sua própria natureza. Mas, se for pra você se sentir melhor e ser uma pessoa melhor, vale muito a pena. Pior do que os homens das cavernas estavam você não vai ficar.