sempre tive questões sobre fins e desgastes desnecessários. o que vale mais a pena? se desgastar numa relação meio merda ou lidar com o fim enquanto ainda não se criou certo nojo da cara do outro?

vamos esplanar as merdas em cenas.

ato um

ele entra na sala e diz que não aguenta mais. você é louco, sua depressão e sua instabilidade emocional são demais para ele e que a vida é curta demais para ele desperdiçar um sábado à noite catando teus cacos. então dá de ombros, entra no quarto, arrasta a mochila sem te olhar nos olhos, como um bom covarde que sabe que fez as coisas de uma forma errada mas finge que não percebeu, e sai com ar de “não se mata, por favor”.

ato segundo

você passa mil mensagens no whatsapp explicando que tudo vai melhorar, que essa crise também vai passar e que com ele é mais fácil lidar com os problemas e os vazios. pensa nas mil vezes que ele disse que estaria lá para tudo e lembra que sentia que dessa vez ia ser diferente. mais uma vez, acho que “você” errou.

ato terceiro

você chega à conclusão de que não dá pra viver sem ele e que nada mais faz sentido. e não fala para o analista, para ninguém, porque as pessoas entendem “só quero que a dor cesse” como um impulso suicida. e então a vida segue dias à fio como um filme brega de comédia romântica, cheio de flashbacks dos momentos bons, closes do seu rosto pálido e cheio de olheiras encharcando o travesseiro ou seu corpo fraco deslizando no azuleijo do banheiro até chegar no chão.

ato final (ou ato contínuo)

um dia você acorda estranhamente bem e decidi ir à praia, tomar um sorvete, fumar um. recebe uma ligação e ele quer tomar um café. estranhamente vocês não comentam sobre a falta de tato dele em lidar com a sua loucura e se beijar como se não houvesse amanhã parece o único diálogo lógico. dado momento você está rolando na areia, com a mão dentro da calça dele e tudo parece tão certo! vocês voltaram.

até onde vocês vão dessa vez? até onde você vai conseguir disfarçar a loucura, fingir que não está à beira de mais um surto? e ele, por acaso, aprendeu a lidar com isso? até onde vocês vão fingir que se bastam e que a vida à dois é construída apenas de momentos felizes e plenos? até onde você vai conseguir estar bem nessa história louca que você projetou? talvez você nunca deixe de ser louco, e tudo bem, ou talvez ele nunca consiga ser lúcido por vocês dois, tudo bem também. o que não tá bem é continuar escrevendo essa história infeliz e incompleta só porque o prólogo ficou bom.