Meus anos não bastam

Mais tempo é preciso. Tempo para sentir melancolia ao fim da tarde, reciclar os detritos domésticos e se inteirar da geopolítica global. Tempo para ir ao banco, compor um poema, remendar o botão da camisa, encher uma poupança e se doer de saudade, sem perder a hora de bater o ponto no trabalho. Tempo para domar com graça quatro idiomas, respirar lucidamente e arranjar de rever aquele velho afeto que há dois anos não encontra. Tempo para entender a injustiça, reconhecer fortuitamente um talento e bater em retirada com antecedência, antevendo a perda do horário caso o ônibus se enganche na confusão das máquinas. É preciso mais tempo para ler Platão, a vanguarda contemporânea de poesia e o jornal diário— averiguando, a posteriori, a veracidade de todas as datas, eventos e fatos noticiados. É preciso mais tempo para deixar os feijões de molho, assar o próprio pão e advogar pela taxação das grandes fortunas. Mais tempo para escrever cartas, ouvir os discos de mamãe e marcar exames de rotina. Tempo para emitir opiniões sobre a psicanálise, a eutanásia, o capitalismo e as formas de amar que não valem a cólera. É preciso tempo para planejar a aposentadoria, ir ao cinema às quartas, quando é mais barato, e aprender a dizer não para as dores anciãs. É preciso mais tempo para posicionar-se sobre a existência dos deuses, prestar serviço voluntário, e estudar a história crítica do Brasil. Tempo para chorar a morte. Tempo para curar um coração partido e uma escoliose na coluna vertebral. Tempo para transar, beber uma colher de azeite em jejum todos os dias, viajar para a Ásia, elevar-se espiritualmente e produzir um legado inesquecível para a sociedade. Mas meu despertador não tocou, inda tô prostrada na cama, nem sequer tomei banho, o tempo não perde a hora, não sei falar a língua dos ponteiros, a cada segundo eu envelheço e, agora mesmo, me acho mais atrasada pra viver

12 de abril de 2017 19:43

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