Abulia

Amanheceu cinza. Tadeu acordou mais cedo porque terá que passar em casa antes de ir para o trabalho. Ele detesta isso, mas essa é a consequência da escolha que fez na noite anterior.

Já haviam passado dez minutos desde que o despertador do seu celular tocou, mas ele se mantinha na cama. Estático. Apenas olhava fixamente para o teto. Parecia um pesadelo, mas era apenas mais um dia qualquer. Precisava se levantar.

Tentando não fazer barulho, Tadeu arrumou as suas coisas. Colocou o cinto, vestiu a camisa e saiu sem se despedir. Conversariam pelo WhatsApp depois. Além de não querer acordar ninguém, tinha que se apressar. Até a sua casa são uns trinta ou quarenta minutos. De lá até a estação, mais uns vinte.

Em casa, tentou ser prático. Pôs o café para passar enquanto tomava um banho rápido e escolheu uma camisa lisa, de cor escura, para não ter erro. Iria vestir o mesmo jeans que usara no dia anterior. Prestes a sair, decidiu tirar o moletom da bolsa. Afinal, não estava frio. Não fazia sentido carregar peso à toa. Porém, pouco depois, se arrependeu. Enquanto esperava o trem, a manhã esfriou. E como a lei de Murphy manda, o maquinista resolveu deixar o ar condicionado funcionando como se estivéssemos em pleno verão fluminense. Até chegar à Central, iria ser uma tortura.

Antes de ir para o metrô, deu um pulo na banca para comprar o jornal do dia. Para facilitar, já estava com o dinheiro trocado em mãos. Logo após, esbarrou com um amigo que não via há tempos. Só deu tempo para um abraço. Seguiu seu destino.

Foi ao descer no Cantagalo que a angústia o acometeu. Sem saber o porquê, dezenas de pensamentos surgiam em sua cabeça. O desespero bateu. Ele se agitara. A tensão tomava conta de seu corpo. Sentia por baixo da pele uma sensação gelada e febril. Suava frio e não parava de tremer. Queria chorar. Não sabia o que estava acontecendo, enquanto tudo ao redor assumia um ritmo fora do tempo. E aquele fluxo de pensamentos estava lhe deixando louco. Dentre tudo o que passava em sua mente, um questionamento começou a ganhar destaque. Se perguntava por que diabos se sujeitava àquela rotina, pois, sempre foi uma pessoa que ansiava por um vida ativa; hoje, vive o extremo oposto. Trabalha em um supermercado da zona sul carioca, onde se sente preso, além de sempre ser tratado como lixo pelos moradores da vizinhança. Começara no trabalho para pagar a faculdade, mas por falta de tempo, logo teve que largar o curso; prometia a si mesmo que seria temporário, porém, já eram quatro anos naquela realidade assombrosa. Ele não saia do lugar. E sentia-se compelido a não mover um dedo se quer para que isso acontecesse. Nada melhorava. E aquele surto inexplicável o fazia enxergar pela primeira vez que aquela situação toda nada tinha a ver com os sonhos de outrora. Por mais que fosse óbvio, nunca havia refletido sobre isso até então. E em meio aquele mar de gente, que passava por ele com toda a pressa do mundo, sentiu-se à deriva. Queria fugir dali, voltar para casa, correr em direção aos seus sonhos, mas lhe faltavam forças. Naquele instante, Tadeu só conseguia pensar em uma coisa: as suas contas estavam atrasadas.