Quintino

Eu estava distraído. “If You Can’t Say No”, do Lenny Kravitz, tocava nos fones de ouvido. Foi quando eu olhei pela janela do trem e a vi, completamente solitária na estação de Quintino. A luz que compunha a cena dava ao momento um tom bucólico. Parecia um poster de algum filme dos anos setenta. Pensando bem, me lembrou o poster de “Manhattan”.

Tudo não durou mais do que alguns segundos. Mas talvez tenha sido suficiente para se tornar eterno. Ela, que mexia em seu celular, também com fones aos ouvidos, estava lá, iluminando o vazio e sendo o contraste perfeito para a noite.

Não sei por que, mas eu tenho certeza de que ela estava ouvindo Ventre. Qual música? “Mulher”, “Peso do Corpo” ou “Pernas”? Não sei. Também não importa. Sua pele alva, seus cabelos cacheados e o jeito que usava os óculos sim.

Naquele momento eu tive certeza: acabara de me apaixonar por uma mulher que eu não verei novamente. E que bom, pois tudo aquilo que não podemos ter, jamais será destruído.