Ruptura

Nuvens negras cobriram o céu limpo da noite. Era o primeiro sinal da chuva torrencial que chegaria mais tarde. A calmaria, então o esporro. Uma analogia perfeita para o que é viver, Juçara pensou. Ela então ficou encarando aquela tela escura, como se fosse um palco, esperando que os raios aparecessem como em um espetáculo, mas nada aconteceu. Deu de ombros, saiu da sacada e fechou a janela. Mais uma vez, pensou, assim é a vida. Em um instante, tudo; noutro, nada.

Foi à cozinha procurar o que mastigar. Não estava com fome, só queria passar o tempo. Ficou em dúvida entre alguns biscoitos recheados e o abacaxi, já cortado em rodelas, que estava guardado na geladeira. Como fazia calor, não demorou para decidir, optou pelo segundo. Caminhou até a sala, deixou seu corpo cair no sofá e ligou a TV. Ficou zapeando os canais a esmo. Não estava passando nada de interessante. Graças ao tédio, começou a divagar sobre o trabalho, os estudos, seus relacionamentos fracassados e em como, sem mais nem menos, tudo começou a dar para trás. Remoer tudo aquilo que vinha tirando o seu sono era a única coisa que Juçara não queria no momento. Na verdade, ela queria mesmo era esquecer. De preferência para sempre. Mas como não é possível, só de esquecer por pelo menos uma noite, já seria uma benção. Para ela, é uma tortura essa lembrança constante de que em um dia você tem tudo; noutro, nada.

Passou-se alguma horas. O céu desabava. Estava deitada na cama, sozinha e carente, enquanto os fantasmas daqueles que saíram da sua vida, mas ainda insistiam em se fazer presentes, pareciam não tirar os olhos dela. Vocês não escolheram partir, e com isso me partir, por que não vão embora de uma vez e deixem meu coração se curar, Juçara perguntou em silêncio. Ela, que não sentia mais o luto, ainda não entendia. Tal qual um par de tênis que não servem mais, se via dispensável. E a cada trovão lá fora, um aperto dentro do peito. Doía conviver com a consciência de que para uns, em um dia você é tudo; noutro, nada.