o tempo mora no bolso de um velho

Eu gostava era daquelas coisas que não chegavam a lugar nenhum. Do mais à toa, da conversa jogada fora, de perder um par de horas dentro do próprio bolso. O tempo não se agrada de prisão, e é por isso que abomino a existência de relógio; é quando quero, é o espontâneo, é o efêmero e o atemporal.

É a nostalgia. As lembranças são a alforria do tempo, quando ele se repete e se perde em si, é a liberdade de se pertencer. O amor próprio das horas que se espelham no vidro da memória, correm os olhos pelo que são e já foram, encaram a si mesmas e se conhecem, então, em totalidade.

É um velho. A nostalgia é um velho, nesse exato momento, na minha calçada. Um que fala da pedra e fala da árvore, que fala da estrada e do céu escuro. Na memória de um velho é que o tempo tem espaço de ser quem é.

Nesse velho em particular, o tempo é uma criança espoleta que não sabe onde parar. Vai e volta numa rede de informações aleatórias: é a juventude passada, a chuva que vem, a folha que recém caiu no chão. Para ele parece não existir essa ideia obsoleta de ordem cronológica, essa mania de querer pôr tudo em ordem, a maldição do contexto. Tudo acontece agora, ou ontem, ou amanhã, ou só na cabeça de quem conta.

Nada tem hora de acontecer, não se põe relógio nas memórias de um velho. E ele segue, senhor do tempo, sentado na cadeira de praia na beira da minha calçada, pulando um ano ou voltando vinte, pondo a gente em algum canto do passado ou jogando no imaginário do amanhã. A nostalgia é a razão de ser do tempo, e o tempo floresce em cada vinco do rosto de um velho.