Ser e viver do design

Tudo o que você queria saber sobre ter uma empresa de design e não tinha coragem de perguntar.

Viver de design não é apenas o título do famoso livro do Gilberto Strunk, mas o sonho de muitos estudantes de design logo que saem da faculdade. Entre o sonho e a realidade, existem diversos detalhes que geralmente não são expostos em palestras ou em entrevistas para revistas especializadas.


A história é conhecida, um grupo de amigos com talento e cansados da rotina dos trabalho, e algumas vezes falta dele, se juntam para fazer o que gostam e acreditam. Os desafios são grandes: falta de estrutura, dinheiro, habilidade com números e pouca afeição com a parte burocrática. Mas mesmo contrariando os prognósticos a empresa floresce, o trabalho da empresa aparece em diversos meios de comunicação especializados, blogs te citam, pessoas salvam seus trabalhos no pinterest, fffound… enfim, agora são conhecidos e volta e meia tem um pedido de orçamento no email. Viva!

Quando tudo parecia felicidade surgem as dúvidas:

Trabalhos

Existem basicamente dois tipos de trabalho em um estúdio: aqueles que te dão exposição (marcas legais) e aqueles que pagam conta. Quando conseguimos juntar as duas pontas é o melhor dos mundos, mas via de regra não é assim que acontece.

Trabalhos que te dão exposição são aqueles, geralmente associados a grandes marcas, que vão funcionar como uma medalha de batalha no seu portfolio. Só de mencionar ou ter algo associado a um grande cliente, clientes menores se sentem mais seguros e “aceitam pagar mais”.

Se for um trabalho comissionado por um cliente de fora do país melhor ainda, isso confere um status “world class” ao seu trabalho, o que em teoria pode melhorar o custo dos seus projetos.

O que não é dito: Clientes que te dão exposição geralmente são bem complicados na lida. A verdade é que dificilmente o cliente real, a marca, vem até você mas sim por via da agência que cuida da conta deles. Dessa forma aquele projeto lindo se transforma numa infinidade de emails, correções, conferências via skype, e prazos absurdos.

De maneira geral isso não é algo necessariamente ruim, mas no longo prazo costuma ser a razão por que muitos excelentes profissionais deixam tudo e vão vender coco na praia. Resumo: foda-se meu fígado a grana é boa.

Fama

Ah a fama, essa sereia do mar que vem ceifando marinheiros por séculos. É sempre difícil criticar o sucesso. Tentativas de investigar/criticar o assunto muitas vezes podem soar como recalque, mesmo assim vou tentar.

Todos gostamos de ser reconhecidos pelo que fazemos, essa relação entre prática e validação pelos pares não é algo exclusivo das ditas profissões criativas, acontece em qualquer círculo social que conferem status a determinados aspectos, no nosso caso, da cultura do design.

O roteiro clássico da “fama” em design:

1.Palestras em semana de design da faculdade que se formaram;
2.Colaboração em algum projeto de arte sem remuneração mas que uma marca legal está bancando;
3.Breves aparições na seção portfolio de revistas especializadas;
4.Convite para palestrar em eventos maiores;
5.Perfil completo em revista especializada;

A verdade é que esse tipo de fama não tem muito alcance no cliente do dia a dia (aquele fora do universo do design), mas serve como uma bússola sobre a aceitação de mercado do trabalho que faz. No entanto é muito importante não se deixar iludir, a fama é efêmera.

Dica: Aproveite esses momentos para cultivar as amizades que faz no processo, elas valem muito mais que qualquer trabalho.

Não faça: Não é por ter sido convidado para uma palestra de um evento importante que você seja mais importante. Simples assim.

Tipos de empresas de design

Convenhamos que é legal dizer que faz design. É uma profissão um tanto misteriosa, que mistura o pragmatismo da economia, engenharia, estilo de vida e arte. Além disso propaga uma certa aura de sucesso e requinte, que mesmo sabendo não ser verdade na maioria dos casos, faz parte do show. As empresas de design costumam personificar uma determinada atitude frente ao mercado. Seja “revolucionando”, propagando uma atitude anti-sistema ou sendo pragmático e objetivo como um físico nuclear.

Alguns estúdios têm uma carreira meteórica, com muito talento e uma lista de trabalhos para clientes de doer de inveja às outras empresas. Mas com a mesma velocidade que surgem, desaparecem. Os motivos geralmente são desentendimentos entre sócios ou — apesar da lista de clientes — baixo fluxo financeiro o que força os sócios a buscarem empregos para que possam pagar suas contas.

Outros estúdios são catapultados ao sucesso por conta de trabalhos específicos que conquistaram a atenção da indústria e por conta disso vivem uma infusão de grandes projetos com grandes verbas (isso pode acontecer em estúdios novos ou com algum tempo de estrada). Esse tipo de evento pode ser tanto uma benção ou uma maldição, pois a relação com o trabalho e especialmente o dinheiro mudam substancialmente, algo com o qual nem todo mundo sabe lidar com serenidade. No geral, se bem administrada, são empresas que crescem muito, mas que cedo ou tarde passam pro crises de identidade que exigem uma reflexão profunda e muitas vezes reposicionamento de mercado.

As empresas que se especializam em identidade visual tendem a ter uma abordagem mais pragmática e comercial de todo o processo. Elas entendem — e não estão erradas — o design como elemento competitivo de mercado e não como extensão das pretensões artísticas do designer.

São empresas que, no imaginário do designer sonhador, são consideradas chatas e quadradas, mas no fundo ele sabe o valor dessa abordagem, e ao buscar se profissionalizar, acaba replicando parte das estratégias desse tipo de empresa.

Dica: Deixar o lado sonhático um pouco de lado e aprender um pouco com o pragmatismo desse tipo de empresa.

Maturidade

Com o passar dos anos temos a tendência de nos tornar mais críticos em relação a quase tudo. No âmbito profissional é normal não nos empolgarmos mais com aquele convite de entrevista ou palestra, não porque não sejam mais interessantes, mas geralmente porque não temos o mesmo gás (principalmente aqueles que já tem filhos). Dessa forma ficamos mais seletivos em relação a projetos e a qualidade do tempo que passamos fora do trabalho.

Como o tempo de profissão e experiência acumulada, se você construiu um corpus consistente de trabalho, os clientes começam a te ver como um especialista e geralmente estão dispostos a pagar um pouco mais por isso.

Conclusão

Tive um estúdio por mais de 10 anos com 3 sócios, basicamente passamos por quase tudo que descrevi aqui, em um determinado momento de nossa história decidimos que queríamos fazer coisas diferentes e resolvemos terminar a sociedade (sem brigas e no azul). Se pudesse elencar a melhor coisa que aconteceu durante esse período eu diria que foram as amizades. Muitas começaram por um contato comercial, outras nas inúmeras palestras por esse Brasil. Com o passar do tempo essas amizades se tornaram cumplicidade e, mesmo com altos e baixos, se tornaram mais relevantes com a passar do anos, inclusive gerando novos negócios.