Ted Nelson e o Projeto Xanadu

A visão radical e inconformada de um pioneiro da Internet

Ted Nelson talvez seja um dos mais subestimados pioneiros da Internet. Mais conhecido por ter cunhado o prefixo “Hiper” — como em Hiperlink e Hipertexto — que mais tarde seria a base para Tim Berners-Lee desenvolver um conjunto de aplicações que viria a ser conhecido como World Wide Web (sem dúvida a forma mais conhecida para acesso à Internet). Nelson também é o criador de uma mítica aplicação conhecida como projeto Xanadu, uma rede hipertextual, radical e libertária do intelecto humano, que já foi chamada pela wired de o mais longo vaporware da história da computação.

XanaduSpaces™ de Ted Nelson

Concebido originalmente nos anos 60, o projeto Xanadu propõem uma visão radical na forma como lidamos com informações hipertextuais. Sem entrar em aspectos muito técnicos, algo fundamental na concepção do projeto Xanadu é o controle da origem da informação e a relação entre elas. Em uma palestra para engenheiros do Google, Ted Nelson faz uma analogia com um sistema de edição videos baseado em EDL, Edit Decision List, para explicar como essa rede funcionaria. De posse de um arquivo EDL, que indica todos os cortes no filme, início e fim, um outro software de edição capaz de ler instruções EDL conseguiria reproduzir exatamente o que o editor original decidiu. Esse é um conceito chave na ideia de Nelson, que, ao meu ver, antevia o problema de credibilidade das informações presentes na web.

Ted Nelson apresentando o Xanadu Spaces

Para Nelson, esse tipo de documento ia muito além do que os míticos pesquisadores do Xerox PARC fizeram quando propuseram documentos eletrônicos que simulavam o papel. Para ele a questão não era imitar o papel, mas sim como documentos em tela poderiam ser, tanto que a descrição na página do projeto Xanadu diz que o objetivo desse sistema é o de criar um novo tipo de literatura em tela com documentos paralelos e interconectados.

Diagrama da estrutura de documentos hipertextuais proposta por Ted Nelson
OpenXanadu — Última versão do Xanadu (2014).

Documento paralelos e interconectados! Essa é a pedra fundamental na visão de um mundo de documentos interconectados proposto do Ted Nelson. Quando ele diz paralelo, temos que tomar esse termo de maneira literal: uma série de documentos vistos simultaneamente com suas conexões visíveis e dispostas em um ambiente tridimensional.

Visto hoje pelos confortáveis óculos da história, o resultado prático parece anacrônico e mal acabado. Mas isso só se sustenta até a primeira página, a partir disso podemos ver uma concepção genial que inspirou gerações e, mesmo que por caminhos tortos, culminou na web que temos atualmente.

E se?

O que Ted Nelson propõe é uma visão completamente nova e radical sobre a forma como críamos e acessamos documentos. Nela todo nosso conhecimento estaria em um grande documento, uma espécie de repositório universal de nosso conhecimento; uma nova biblioteca de Alexandria.

Obviamente a estrutura de registro e apresentação de informações não consegue responder por toda a complexidade da comunicação digital de hoje. Interesses econômicos, ideológicos e políticos condicionam e determinam a adoção ou não de padrões em larga escala. De qualquer forma não deixa de ser instigante pensar como seria a Internet se o ethos do Xanadu fosse seu norte.

Tomemos as famigeradas fake news como exemplo. Parte da estratégia desse tipo de informação se resguarda no fato de que a inserção de novos conteúdos na web pode ser feita de maneira quase anônima. Esse “feature” permite que a origem de uma informação seja muito difícil de ser rastreado, favorecendo a disseminação de maneira viral de conteúdo duvidoso.

Já no Xanadu, aparentemente toda entrada de informação é única — ou ela é nova ou faz referências as fontes originais — sugerindo uma maior complexidade na manipulação e no uso com finalidade maliciosa das informações presentes na rede. Certamente esse tipo de especulação de decisões de design parte de uma lógica otimista e romântica sobre a natureza das relações humanas. Historicamente parece que sempre testamos o pior de nossas capacidades para só mais tarde entender que aquilo não deveria ter sido feito e que sempre existem outras alternativas.

Ted Nelson no documentário “Lo and Behold”(2016) dirigido Werner Herzog sobre a Internet e suas consequências.

Mesmo que o projeto Xanadu não seja um sucesso de massa, acredito que temos muito a aprender com visionários como Ted Nelson, que sempre questionaram o status quo e se permitiram a pensar nossa realidade de novas e inusitadas maneiras.