
Nossa geração não teve um modelo para seguir.
Depois da chegada da mini saia, o modelo antigo de mulher ficou apertado, como uma roupa que não serve mais.
Crescemos e precisávamos de novos caminhos e rumos.
Mas ainda não havia nenhum roteiro pré-determinado.
A estrada se abria à nossa frente, mas sem nenhuma indicação. Nenhuma placa mostrando onde o caminho era mais fácil ou suave, e onde poderia ser perigoso …
Mas não tinha volta .
O jeito era entrar nessa estrada, experimentando com cuidado, escolhendo o caminho, sozinhas.
E ai fomos nós, as adolescentes dos anos 60 e as jovens mulheres dos anos 70.
Abrindo caminhos e escolhendo destinos, contando só com nossa intuição e a experiência trazida de uma infância feliz e protegida, a lembrança da escolha de nossas mães — que foi ótima para sua época, mas que não servia mais — , e a fé de que encontraríamos o caminho certo.
E o que significa ter sido adolescente dos anos 60/70?
Significa ser uma pessoa que viveu e ainda está vivendo em uma época das maiores mudanças tecnológicas, ideológicas, e de conhecimento, desde que se tem registro da história do mundo.
Esta nossa época, além de trazer todas essas imensas mudanças, as trouxe com uma velocidade enorme, difícil de ser absorvida.
Os valores de conduta, passados até então, de mães para filhas, começaram a ser questionados, não só pelas filhas, mas pelas próprias mães, que viam com espanto o que estava acontecendo, mas também com curiosidade de saber se, com essas novas posturas, as filhas seriam mais felizes que elas.
Nossas mães, de um modo geral, abriram mão de suas vidas quando se casaram.
Isso é um paradoxo muito interessante e triste. Casavam-se para ter liberdade e vida própria, saindo da casa dos pais, mas entregavam essa vida ao marido e aos filhos, logo em seguida.
Minha mãe sempre disse que foi a geração que não comeu o peito do frango…Pois quando eram crianças o peito era para os pais e quando casaram o peito passou a ser do marido ou dos filhos…
A geração de nossas mães foi educada para saber cuidar de uma casa, ou ao menos saber ensinar uma empregada, cuidar dos filhos, e se trabalhasse, normalmente, só se precisasse, seria um trabalho de professora, pois também era o que, usualmente, permitia sua formação profissional de curso normal.
Essa mãe podia ser consultada para várias dificuldades da casa, pois tinha uma solução para cada uma delas. Sabia como tirar manchas de todos os tipos, cerzir uma meia, fazer um casaquinho de tricô ou crochê, e costurar de modo geral. Seu papel na casa era de suma importância. Toda casa tinha uma palavra mágica, que fazia tudo se resolver …”Maaaannhhhê!”
Sabia também cozinhar, e se não fosse preciso ir para o fogão, o livro de receitas servia como guia, para qualquer nova empregada na casa.
E essa mãe, que se casou pelos anos 45/50, teve seus três ou quatro filhos, no começo dos anos 50, e aqui aparecemos nós: as adolescentes dos anos 60/70.
Apareceram também os eletrodomésticos, a televisão, o avião, e a pílula anticoncepcional.
E com todas essas facilidades, nós, diferentemente delas, fomos criadas para estudar e trabalhar fora. Mas não era qualquer trabalho não.
Fomos preparadas para assumir funções importantes em empresas multinacionais, depois de termos nos formado em ótimas faculdades.
Aí foram formados dois grupos: as que conseguiram deixar seus filhos em casa com babás, avós ou creches e foram trabalhar, e as que não tiveram essas possibilidades ou a coragem de deixar seus filhos em casa e ir trabalhar guardaram o diploma na gaveta.
Porque apesar da pílula, depois de casar, todas as mulheres tinham filhos cedo. Normalmente até os 27 anos.
E aí essa nossa geração dos anos 60/70 viveu esse impasse: ou “sacrificou “os filhos ou “sacrificou” o diploma. Acho que nenhuma mulher da minha geração resolveu esse dilema, impunemente, sem culpas por todos os lados. E ainda mais um probleminha se apresentava: saindo para estudar, muitas vezes já em outras cidades, não aprendeu a cuidar de uma casa.
E teve que fazer tudo, cuidar dos filhos, trabalhar e cuidar da casa.
Eu não fugi desse script. Mas contornei a situação, montando uma agência de publicidade, em casa, e trabalhando também em jornalismo, como autônoma.
Consegui realizar o que me propus fazer, mas sempre com essa culpa de estar deixando de lado as crianças, que ficavam muito na minha mãe, para conseguir trabalhar.
Não fui uma executiva internacional, mas fiz bons trabalhos dentro desses limites da época.