Couro Quente

Era dia de São Cosme e Damião e eu devia ter uns 8 anos. Lembro de voltar para a casa da vovó feliz da vida, carregando vários saquinhos entupidos de doces. Não eram só bombons. Eram os símbolos da vitória no pisão disputado entre a molecada. Pequenos troféus açucarados que eu empunhava com orgulho. Já tinha me dado por satisfeita, quando um amiguinho sussurrou maroto: “sei de uma casa em que ainda estão distribuindo senha… fica ali perto da rodovia”.

A Rodovia Arthur Bernardes ficava muito além do que eu podia ir. Era território proibido, assim como o Cruzeiro e a baixa, principalmente à noite. O perigo era grande e eu ponderava, com cautela, os prós e contras do possível desrespeito às ordens de meus pais. Até que o amiguinho complementou: “estão dando maniçoba também!”. Acabou o juízo. Fui sem olhar pra trás, guiada apenas pelo desejo.

Ao chegar, vi uma fila enorme. Na minha frente, estavam crianças, adultos e, se bobear, até os próprios Cosme e Damião à espera. Persisti. Lembro de cada passo dado em direção à casa, do cheiro de maniva ficando intenso, de várias pessoas saindo felizes com seus pratinhos e eu, cada vez mais próxima da vitória final.

Apenas cinco pessoas na minha frente. De repente, uma mão no meu ombro. Olho para trás e, depois, para cima: meu pai. A cara fechada, sem falar nada. Respirei fundo. Baixei a cabeça. Saí da fila. Sem maniçoba, nem troféus açucarados... Dormi de couro quente.

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