Vendedora

Andréa Neves
Jul 20, 2017 · 3 min read

Saíra decidida. Estava cansada de assistir a milhares de tutorias de maquiagem. Resolveu que era hora de comprar o material necessário para arriscar a pintura no quadro em branco moreno-bronzeado que era seu rosto. O passo-a-passo estava decorado. Primeiro, o primer. Depois, a base e o corretivo. Passa o pó, faz contorno e não esquece o blush pra aquele ar de saúde. “Tudo com pouco produto pra não pesar a mão. Faz camadas!”, lembrava do conselho da Youtuber famosinha. Depois iria para os olhos. Um leve esfumado no côncavo para ressaltar profundidade. Curvex e rímel para cílios sensuais. Confiante, arriscaria até um delineado. Não qualquer um: gatinho! É só ter cuidado e ir carimbando “rente à raiz dos cílios”. Não tinha como dar errado.

— Posso ajudar, senhora?- perguntou a vendedora interrompendo seus pensamentos. Tratou de explicar seu objetivo: coisa simples, apenas o básico para o dia-a-dia. A vendedora exibida tratou de lhe encaminhar a uma prateleira cheia de produtos para pele. E quanta pele! Mista, oleosa, seca, amarelada, rosada, neutra, clara, morena, negra, com cobertura leve, média, alta, matte ou cremosa.

— Já sabe sua cor de base?

Os olhos perdidos denunciavam o desespero. Encarava os produtos e buscava semelhanças nas cores que trespassavam os vidros. Apontou para a que julgou mais se aproximar a sua cor. “Médio escuro”. Com espanto, notou o espanto estampado no rosto da vendedora que a atendera.

— É pra você? Tem certeza? — insistiu, após receber uma afirmativa como resposta.

— A senhora não me leve a mal, mas esta base é para peles negras e você definitivamente não é… Sua cor é essa! — e lhe entregou um potinho trazendo a especificação “Claro sutil”.

A cliente não muito convencida encarava fixamente o vidrinho da discórdia. Clara ela não era. Recusava-se a aceitar. Podia estar meio pálida, a luz da loja também não ajudava. Mas, clara? Não, não. E tratou de protestar, explicando-lhe, sem sucesso, seu ponto de vista.

Uma outra vendedora, percebendo o impasse, resolveu ajudar.

— Perdão, mas as duas estão enganadas! Você com certeza não tem pele escura, mas também não é clara. É morena clara”.

A paciência já estava indo embora. Onde já se viu? Uma cor de pele e três visões diferentes. Não podia ser tão difícil. E o direito à autodeterminação?

— Qual a base, então, moça, que até eu fiquei curiosa? — perguntou a cliente da prateleira ao lado já intrigada com a polêmica.

Como se desvendasse um mistério, a vendedora pontuou cada pista que a levara à resposta correta. Discorreu sobre tom, subtom e tipo de pele. Falou até sobre oxidação, uma espécie de reação química que acontece no momento em que as bases entram em contato com oxigênio e que possui o poder de deixá-las mais escuras.

— Elementar, minha clara!- e finalizou a explicação à la Sherlock empunhando um vidrinho etiquetado: “Natural dourado”.

Convencida, comprou ideia e base. Ao chegar em casa, a triste surpresa: o natural dourado não passava de um pálido bege e mesmo após vários minutos, não havia nenhum sinal de oxidação.

A YouTuber famosinha até deu dicas de como corrigir a situação. Uma engenhoca que envolvia corretivo mais escuro e muita sabedoria de luz, sombra e arte. Ela até cogitou a possibilidade, mas só de pensar em ter que voltar à loja, desistiu. Preferia evitar discussões sobre a cor de sua pele e novas aulas sobre reações químicas. Voltaria aos tutoriais e às resenhas em blogs. Aliás, química nunca fora seu forte. Pintura também não. Da teoria, ela gostava.

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Andréa Neves
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