[Sobre uma carta escrita e não enviada]

Caminhando pela parte antiga da cidade, sem procurar nada, embora sempre atento, encontrei uma daquelas feiras de antiguidades. Quantas gratas surpresas se pode encontrar nelas? Eu, ainda que acostumado, mal posso contar.

Certa vez, achei um álbum de figurinhas do futebol internacional. Foi bonito. Levei, afinal, era artigo raro. Já me deparei com outras coisas incríveis também, mas nenhuma me comoveu tanto quanto a relíquia de hoje: uma carta escrita e não entregue.

Sem hesitar, fiz mais uma aquisição. A história me cativou e não pude esperar a volta para casa. Sentei no no meio-fio e comecei a ler a tal carta. Não era longa, estava escrita na folha de um caderno pequeno, então, vou contar o que li.

“Aninha, tudo bem?
 
Gostaria que você soubesse de algumas observações que tenho feito. Admiro sua habilidade de olhar o mundo e ver o que não consigo. Explicar o mundo com imagens exige uma sensibilidade que não tenho. Admito que suas imagens valem mais que 1006 das minhas palavras — e você sabe o quanto amo as palavras.

Você tem uma forma de ver que transforma as trivialidades cotidianas em poesia não verbal. Você mostra um mundo muito mais bonito do que ele é ou, na verdade, por um ângulo diferente, com um enquadramento que me escapa ao olhar e me surpreende. Ah, como gostaria de enxergar o mundo com os seus olhos!

Mas, Aninha, tem algo que me preocupa. Parece que ao olhar para si própria essa sua habilidade de deixar tudo mais belo se perde. Não sei… sua lente desfoca e você não consegue obter a melhor autoimagem. Isso deixa você frustrada. Isso deixa você triste. E, saiba, não gosto de ver você triste.

Espero que ajude, mas não tenho certeza se é assim que funciona. Ainda assim, escrevo esta carta para que fique claro o quanto lhe admiro. Você deveria se orgulhar por ser quem e como é, entender que é grandiosa a sua maneira simples de existir e aceitar de vez que seguir o coração é uma ótima escolha.

Aninha, se você, como a Alice de Leminski, ali se visse, mas, desta vez, com a minha lente, como eu vejo, quanta beleza você veria! Ah, como gostaria que você enxergasse a si própria com os meus olhos!

Escrevi, Aninha. Só não sei se vou lhe enviar esta carta, mesmo achando que é um direito seu recebê-la. De qualquer forma, precisava passar para o papel essas minhas impressões”.

Não enviou e ela está nas minhas mãos agora. Pergunto se o dono da carta, que sequer a assinou ou indicou a data, conseguiu dizer essas palavras à Aninha. Espero que sim. O silêncio é o maior inimigo dos sentimentos, que, aliás, não devem ser escondidos, não devem ser evitados. Por que poupar alguém de saber que é querido? Acho que Aninha gostaria de ter sabido. Acho que Aninha precisava saber.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.