[Sobre uma estranha no ônibus]

“E se deus fosse apenas um estranho no ônibus tentando voltar para casa?”, dizia a canção no rádio. Bem, João não sabia se deus ou, no caso, deusa usaria com tamanha serenidade um transporte público tão precário, mas de que tem cabelos meio avermelhados já não havia mais dúvidas. Ah, e uma beleza bem séria também — claro, afinal, divindades não são retratadas sorrindo por aí, dizem.

Vê-la pela primeira vez causou nele um grande impacto — que se repetiria nas tantas outras a partir de então. Teve vontade de abordá-la e dizer o quanto a achava linda. Porém, considerou o que poderia se passar pela cabeça dela ao receber a informação. Será que ela gostaria de ouvir isso dele? Será que esperava isso daquela manhã? Talvez fosse até óbvio para ela. Além do mais, João não queria ser confundido com um galanteador ordinário.

Assim, pela primeira vez, não falou nada. “O que dizer para ela se não há certeza de um novo encontro?”, indagou-se. A pergunta ecoava de maneira meramente retórica, pois por mais de um ano não vieram palavras à boca. Na verdade, justifica-se, “faltaram ocasião e um bocadinho de coragem. Não trocaria a garantia da pacífica contemplação da beleza pelo pronunciamento de um elogio vazio, embora sincero”.

Aliás, não é esquisito que se tenha medo ou pudor de fazer contato com um desconhecido? Os transportes das cidades muitas vezes são uma grande reunião de gente solitária que não se fala. Todos os dias são olhares trocados, acenos com as mãos, meneios de cabeça e, eventualmente, sorrisos, ainda que tímidos. Certamente, um ambiente muito próspero para os flertes mais memoráveis da vida. Mas tantas histórias jamais serão contadas porque alguém não quebrou o silêncio.

João se esforçou para ter uma dessas histórias não existentes e, portanto, nunca contadas. Um dia ela se sentou ao seu lado. Isso poderia ter sido bom, mas eles não haviam se falado antes, razão pela qual ele não parecia muito confortável com a proximidade. Queria iniciar mais uma manhã observando a beleza séria dela, porém não podia passar a viagem inteira usando o canto do olho, que, inclusive, pode ser um movimento bem cansativo. “Não deve ser confortável para uma moça estar sob o olhar de alguém — talvez — indesejável”, imaginou. Mais uma vez, não falou nada.

Meses depois, mais um encontro. Com a lotação transbordante do coletivo, ele não escolheu onde ficar; foi obrigado a parar no único espaço que existia — menor que o necessário à dignidade de um passageiro. O que seria azar, ao contrário, foi sorte: lá estava ela muito bem acomodada e perfeitamente séria, precisamente no campo visual dele. Nem os longos cabelos avermelhados que cobriam o rosto, nem os óculos de sol foram suficientes para evitar o olho a olho, do qual ela não fugiu. Ele, porém, que decepção, nada disse novamente.

Após esse evento, ainda sem palavras, viajaram juntos outras vezes. Houve também os dias em que estiveram em ônibus diferentes. Enquanto os carros passavam um pelo outro em sentidos opostos, os olhares se encontravam e se viam durante aquela pequena fração de tempo. Com sua incrível habilidade de gostar de estranhas (em todas as acepções possíveis para o termo), estava inegavelmente apaixonado por uma garota sem nome e de quem sequer tinha escutado a voz. Estava apaixonado pela estranha do ônibus.

No mesmo dia em que reconheceu o estado de seu coração, teve a ocasião por que tanto esperava. João a encontrou no ponto de ônibus. Os cabelos avermelhados, outrora longos, estavam curtos — como a mulher que rascunhava pessimamente em seu caderno, pois, para o seu gosto, essa era a aparência feminina ideal. Ah, mas a seriedade do seu semblante era a mesma. Seriamente bela; seriamente intimidadora. No entanto, desta vez, com alguma coragem e uma prolixidade auto indulgente, ele abordou a moça.

- Com licença! Eu sei que não é da minha conta e que a minha opinião não deve fazer tanta diferença para você, mas […]

Nesse ponto da fala, a expressão sempre séria se tornou assustada. Provavelmente, temia o que poderia finalizar aquela frase. “O que esse louco vai me dizer?”, deve ter pensado. João concluiu:

- […] eu achei que você ficou tão bonita com esse novo corte!

Depois do elogio, a deusa, em toda a sua glória, desmanchou-se em um sorriso divino, luminoso, lindo e surpreso. Balançando a cabeça positiva e lentamente, disse, de forma pausada, apenas uma palavra em sinal de aprovação ao que ela acabara de ouvir.

- Obrigada!

A essa altura, o coletivo já se aproximava. Hora de voltar para casa. Os dois embarcaram e, então, ela ainda era uma estranha no ônibus. Mas o silêncio foi quebrado.