Alguns porquês e reflexões - Breve análise dos formatos abordados na mídia sob o esoterismo, e nas demais doutrinas e religiões
A sabedoria é um paradoxo. O homem que mais sabe é aquele que mais reconhece a vastidão da sua ignorância. — Nietzsche
De onde vem o medo de cemitérios da maioria das pessoas? E o medo de espíritos? Nos tempos atuais, possivelmente, foi impregnado na psique humana de forma sutil, por trilhas sonoras bem escolhidas, abordagens intencionadas a passar medo, relacionados ao escuro, à noite. O que não podemos ver, nos deve causar medo. É assim que nos é entregue assuntos que podem ser explorados dessa forma. Um prato cheio para ser exibido na TV, com os velhos clichês e os desserviços de entrega da informação.
Frequentemente, quando vemos na TV, em programas de entretenimento, algo relacionado ao espiritismo, por exemplo, muitas das vezes nos é mostrado como somente aparições de espíritos ou ‘curandeiros’. Tudo isso, exibido com abordagem de maioria sensacionalista. Não faltam pitadas de trilhas sonoras de fundo com tom aterrorizante, utilizadas com a intenção de causar medo, mesmo sendo em uma matéria às vezes apenas informativa, que acaba se perdendo na intenção de assustar. Auxiliando em um desserviço à doutrina espírita, ou a qualquer outra que possa ser tratada dessa maneira.
Um exemplo disso do que vemos na TV: O caso Bruno Borges, o conhecido “menino do Acre” (que aqui ignoraremos suas possíveis intenções lucrativas). Foi algo que surgiu como um belo “show” a ser construído pela mídia, de enredo novelístico, com “suspenses” e personagem misterioso. A história espalhou-se pelo país como piada, assunto de conversas, e até atraindo alguns curiosos em entender o que ele quis dizer ali. Com isso, surgindo também o deboche a doutrinas que merecem respeito, assim como qualquer outra.
No caso de Bruno Borges, a mídia tentou buscar o significado das coisas presentes. Como em uma novela em que é oferecido a descoberta do mistério para o telespectador, sendo apresentado ao público o fácil de ser decifrado, deixando muitos porquês, como se fosse sabido da existência de algo a mais, mas fosse dado somente o mais fácil do público digerir. Isso não é informação completa, é uma quase informação, talvez até algo desonesto com o público. Mas se fossemos entrar a fundo no quesito desonestidade, os dois personagens citados seriam culpados. O que queremos dizer é que o ocultismo não é facilmente passado para o público, e nesse caso possuía muitos elementos ocultistas, que são estudados afundo e levados com muita seriedade, e que se resumiram a falas como “símbolos esotéricos”.
Em tempos onde a liberdade feminina e sexual é tão discutida, e se tornam discursos a serem debatidos na mídia, ainda existem tabus pelo que é antigo. Espiritismo só surge quando tem espirito para prender a audiência, o estudo da astrologia resumiu-se a horóscopo, ocultismo ainda é passado como algo análogo a magia negra e maldade. Estereótipos como esses que deveriam ser desconstruídos, acabam ganhando mais força.
Dos programas de TV
Utilizaremos três programas transmitidos na TV para exemplificar um pouco do que ela nos oferece.
No Brasil, temos a série que foi exibida aos domingos, apresentada por Celso Portiolli no SBT, de nome “Os Paranormais” (2014). A série, produzida pela Cygnus Media, resumidamente, trazia a competição entre “paranormais”, para eleger o melhor entre eles. Na competição foram trazidos bruxos, terapeutas, tarólogos, e um babalorixá (pai de santo). Originalmente o programa se chama “Psychic Challenge”, que se traduzido literalmente, teríamos um desafio psíquico, um desafio da psique humana. Ao ser dado o título para a série foi lembrado o olhar da maioria da população brasileira, em tratar como além do normal os eventos ali mostrados, algo desconhecido. Alguns dos próprios personagens se auto denominavam dessa forma. Sem ser considerado que o termo distanciava os eventos da realidade, fazendo com que o que fosse visto, estivesse distante, dando um tom de ficção e fantasia. Um “show” a ser apresentado.


Ficava evidente que, o apresentador desconhecia grande parte do assunto que ele trataria e levaria ao público. Se mostrando tão curioso quanto o telespectador comum, o que não favorecia muito a entrega das informações. Apesar do bom formato do programa, o despreparo, talvez, tenha se refletido na recepção do público, em geral. O formato era de um show, e era assim recebido, como um show.

Indo agora para a série “Crianças Médiuns” (Psychic Kids), exibida pela rede de TV A&E. O programa mostra casos de crianças que podem ver ou comunicar-se com espíritos. Com o auxílio do que se auto denomina médium, Chip Coffey, e uma psicóloga, Dra. Lisa Miller, crianças são orientadas a como lidar melhor com seus poderes psíquicos e mediúnicos. Apesar dos casos emocionantes, muitos deles são retratados e exibidos ao público como algo tenebroso e assustador o ato de falar com espíritos, mas, ao mesmo tempo, em contradição, ao fazer com que as crianças vejam com naturalidade a comunicação com os espíritos. O tema como é tratado não orna com o que é exibido. Ora, se a intenção é de ajuda-las a entender melhor e ver a naturalidade dos eventos, então por que isso é apresentado ao público como um filme fictício de conteúdo que espante? A intenção parece óbvia. Entreter, somente.



Geralmente, quando em uma entrevista se é falado do pai falecido de alguém, a intenção é de trazer junto o sentimento de comoção ao público. Isso é muito comum. Já em uma matéria do programa ‘Okay Pessoal’, de Otávio Mesquita, quando é mencionado que seu pai falecido estaria próximo a ele, como espirito, se bem observado, pode-se notar que o assunto é tratado como se ele fosse um “fantasma” assombrando o local. Com tom de causar medo. Se fosse retirado parte da edição feita, poderíamos concluir que era uma conversa comum, ‘amigável’ sobre o assunto. Isso está a partir do minuto: 8:18
A visão em relação à morte e a cultura no Brasil pode favorecer que esses assuntos sejam tratados dessa forma. Sempre tenebrosa, assustadora e obscura.
Fica claro que eventos como esses são um prato cheio por estar na realidade e, ao mesmo tempo tão semelhante à ficção. Será que estão sendo passados da forma que deveriam, será também impossível de acabar com essa forma de exibir ao público conteúdo como esse, quase sempre no mesmo formato?
Do Espiritismo
O Brasil é considerado o país mais espirita do mundo e, ainda assim, há uma desinformação muito grande sobre essa doutrina. É comum nos depararmos com matérias em que o apresentador cria um enorme suspense, depois a matéria é apresentada com um repórter que narra seu medo diante as circunstâncias (que é natural), e assim prossegue. O entrevistado, muitas vezes um clarividente, fala o que vê, ouve ou sente. E ao fundo, uma música que cause medo, e essa não pode faltar, não é? O velho clichê desse tipo de reportagem, com quase sempre o mesmo gênero de edição. Sem ser questionada pelos que a veiculam, esse gênero repetitivo começou dessa forma e até hoje nunca mais parou. Desde o cinema ao jornalismo, coisas como essas parecem ter influenciado as próprias denominações utilizadas por alguns médiuns. Como, por exemplo, alguns se auto denominam “caça-fantasmas”, o que muitas vezes os próprios não veem isso dessa forma. Porém, com a intenção de chegar a todo tipo de público, tendo um pouco da percepção da cultura e o conhecimento limitado do mesmo, acaba sendo a melhor forma de explicar o que são. Os fenômenos “sobrenaturais” acabam virando filme, explorados para saciar a curiosidade do público. Somente a curiosidade. Informação correta às vezes não é passada.
Muitos assuntos de vertente espírita não foram sequer apresentados ao público, resumindo a doutrina a espíritos que aparecem e se comunicam. Pelo desconhecimento do mesmo, ou pela preguiça de buscar informações, ou até por terem consciência do possível ‘estranhamento’ do público, que ao se deparar com notícias mais didáticas, talvez o conteúdo não fosse bem recebido. Nos levando a antiga discussão de que, a mídia oferece o reflexo do povo, ou o povo reflete o que foi influenciado pela mídia? Como se a mídia soubesse o que o público quer. Em um caso como esse, como sabem o que eles querem, se nunca lhes foi apresentado o que poderiam querer mais? A informação que ali falta que poderia ter grande importância, aquele algo a mais raramente exibido?
Os profissionais da área e também os que se sentem lesados por ela, devem questionar a repetição dos velhos formatos, desinformando mais do que informando. E que não caiam no conformismo pelo que já está na TV há muito tempo, ao mesmo tempo, parecendo que ainda não aprendeu nada.
Extra: Dos “algo a mais” no espiritismo que a mídia não costuma mostrar
Entrevistamos Ruth Brasil Mesquita, psicóloga clínica e diretora da Federação Espírita do estado da Bahia, e também fundadora do Instituto Potência de Paz, que possui natureza educacional, psicológica, social e cultural, sem caráter religioso nem partidário. Ela afirma que a missão do instituto é “despertar o ser humano a perceber-se como Potência de Paz”.

A questionamos sobre a Transição Planetária, conhecida por Era de regeneração. Assunto que está presente na sociedade toda, mas discutidas apenas por algumas religiões e doutrinas. O assunto ainda não teve espaço na grande mídia. Quando pesquisado, é perceptível que não há uma linguagem mais jornalística que o traduza ao mais simples homem comum. As transformações ocorridas na sociedade como consciência universal, a evolução espiritual do universo como um todo, a importância da tecnologia na comunicação, tudo isso e mais. A Transição Planetária fala da transformação de uma era para outra. Uma era de regeneração. Sensitivos e médiuns relatam que podem sentir as mudanças trazidas por essa era, em que toda a humanidade será afetada.
Em uma de suas falas, Ruth Brasil Mesquita, fala um pouco sobre o simbolismo bíblico, em que evidência o passo para essa transição, diferente do fim apocalíptico, como é tratado em demais religiões. Ela diz:
“de modo geral, existe uma visão apocalíptica por um grupo de cristãos, católicos e evangélicos. Em que eles têm visão apocalíptica e não procuram a linguagem simbólica das escrituras, como o sentido e o significado das palavras, que é fundamental. A palavra apocalipse, significa em grego revelação. Assim sendo, é a revelação de um processo que a humanidade pode dar um passo além, em progresso. A bíblia possui muitos simbolismos. Como em o apostolo João, o cenário que ele descreve também é simbólico. Quando João diz algo como “eu vejo grandes pássaros que despejam ovos de fogo”, o que ele estaria vendo naquela hora? Aviões de guerra, e os ovos seriam bombas. Mas não existia em seu vocábulo o termo avião e nem bomba. Para ele entender o que via, ele vai ter colocado um processo simbólico, porque teve acesso espiritualmente a essas informações”.
Lembrando aqui que o termo Era da regeneração ou Transição Planetária, possui outros termos semelhantes em outras doutrinas e religiões. No catolicismo e protestantismo, fala-se de apocalipse, mas visto como fim ou destruição.
Quando questionada sobre a forma de divulgação do espiritismo por uma parte da mídia, foi bem sucinta e disse que “uma nova consciência está surgindo, tudo se resolverá aos poucos, gradualmente”.
Link: Artigo para leitura — Carta aos Jornalistas: Espiritismo, o que é na Verdade?
Artigo de Alamar Régis Carvalho, direcionado para jornalistas, com a intenção de desmitificar alguns assuntos abrangentes do espiritismo.
Autores: Patrícia Neves e Jonatan Sousa. Para a disciplina Tópicos em Comunicação: Religião e Jornalismo
