McDonald's e a viagem de trem

Aviso: A seguir é um relato de viagem que não necessariamente envolve uma crítica a rede de fast-food mencionada no título.

Capitúlo I

A Viagem de Trem

Bom, McDonald’s ultimamente esteve muito longe de ser meu fast-food favorito por "n" motivos que não cabem e não necessitam de ilustração na narrativa que se segue, mas após passar por algumas experiências, que me refiro com certo exagero como “traumáticas”, comecei a ter outros olhos para essa rede mundial de alimentos.

Há alguns meses tive a oportunidade de sair junto do meu irmão em um tour por alguns países da Europa, dentre eles a Alemanha, mas minha história começa na parada anterior: Amsterdam.

Após passar 03 dias naquela cidade maravilhosa, havia me programado para pegar um trem que sairia da Estação Amsterdam Centraal para a Berlin Hauptbahnhof (estação central de Berlim). Tudo seguia conforme o planejado, fiz o check-out do hostel pela manhã, andamos pelas redondezas até se aproximar um pouco mais do horário da partida, então seguimos para o metro e de lá direto pra estação.

Chegando lá fui procurar ajuda com uma atendente pra que me esclarecesse sobre minha passagem, pois eu havia feito a reserva e impresso o comprovante tudo em alemão (talvez por conta disso tive que passar pelo que passei). Eu estava crendo que embarcaria em um trem as 19:00 dormiria todo o trajeto e acordaria as 8:00 do dia seguinte na maravilhosa capital alemã, na pior das hipóteses teria de troca de trem durante a madrugada. Ledo engano meu.

Observei em minha reserva, pelo pouco que pude deduzir do que possivelmente estava escrito, era que haveriam quatro paradas durante o trajeto e pelos horários na ultima dela eu deveria trocar de trem em Herzongerath (ja na alemanha), pelo tempo de espera na estação. Contudo, as coisas saíram um pouco mais complicados que pude imaginar, a senhora me informou que eu teria que fazer 4 trocas de trem e em uma delas eu teria que esperar por 4h em uma estação antes de Düsseldorf. Obviamente fiquei muito frustrado e um pouco preocupado pois toda a viagem seria no período noturno, a atendente ainda me informou que se eu quisesse poderia embarcar mais cedo em um trem que estava pra sair com destino a Sittard.

Pedaço da passagem com as informações dos trens

Contei ao meu irmão o ocorrido e de tudo que nos aguardava e ele aconselhou que saíssemos naquele horário, pois quem sabe assim poderíamos chegar mais cedo em Berlin, concordei, e passamos a aguardar o trem.

O primeiro momento da viagem foi tranquilo e bonito, saímos de Amsterdam em direção a Sittard (ponto da nossa primeira troca de trens) ao por do sol enquanto apreciávamos os belos campos e moinhos holandeses do interior do Reino dos Países Baixos, ver todo aquele cenário parecia um sonho, quase uma cena de filme.

Chegando em Sittard o trem que nos levaria a Heerlen ja estava aguardando, entramos e a viagem seguiu tranquila. Já havia anoitecido e um pouco de cansaço começou a bater, afinal tínhamos nos programado para ir dormindo o caminho inteiro, algo que seria impossível nesse novo contexto da viagem. Já em Heerlen as coisas começaram a complicar, observamos que estávamos bem no interior do país e que as estações começavam a ficar longe da cidade e eram apenas blocos de concreto com cobertura e nada mais. Nem mesmo uma sala para nos protegermos das intempéries do inverno europeu, muito agressivo aos brasileiros acostumados com o verão contínuo.

Para piorar a situação, a bateria do telefone do meu irmão havia acabado e no meu restavam apenas 20% de carga. Imagine só você leitor, tendo que pegar trens pelo interior da Holanda e da Alemanha como se fosse um grande sistema de metrô o qual você desconhece a linha e a língua em que as instruções são dadas; para aqueles que se perguntam se não tinha placas em inglês: não, não tinham e o sistema raramente informava algo em inglês, apenas em Dutch ou Alemão. Ps.: Não sei absolutamente nada das duas línguas, nem dizer oi! Mais um detalhe, meu plano de dados 3G/4G havia esgotado então eu sequer podia olhar onde eu estava no mapa, e nas estações mal tinha um teto, quem dirá Wi-Fi.

Enfim… o quadro típico do mochileiros de primeira viagem estava montado: semi-perdidos em paradas de trem que só Deus sabe onde exatamente estávamos, celular quase sem bateria, sem sinal e tudo isso no meio da noite com pouquíssimas pessoas para nos ajudar.

Saímos de Heerlen e após 15 minutos de viagem chegamos a Herzogenrath, desembarcamos na estação em torno de 22:00. Ao sair do trem eu e meu irmão olhamos estarrecidos para o local pois eram dois blocos de concreto, apenas com uma cobertura de metal no meio do nada (pelo menos era o que parecia naquele horário), atravessamos para a plataforma seguinte que era onde nosso trem para Düsseldorf iria parar e passamos a esperar.

Fazia um frio horrível com vento constante que deixava tudo mais gelado, nossas roupas de frio não estavam sendo suficientes para nos aquecer e pra piorar meu irmão queria ir ao banheiro. Por todo lugar que olhávamos não havia banheiro na estação, consultamos nossas passagens e percebemos que teríamos que esperar ali até 03:00 da madrugada, pude sentir apenas o desespero batendo.

Imagine este lugar a noite. Fonte: Gooogle Imagens

Para todos os lugares que olhávamos havia apenas escuridão e silêncio, haviam 04 pessoas naquele lugar. Uma menina; um rapaz, ambos na faixa de 20–25 anos e mais dois homens com aparência em torno dos seus 40 anos. Um dos homens mais velho estava visivelmente embriagado e o outro, que após alguns minutos não consegui identificar se sofria de problemas mentais ou se estava alucinado por conta de narcóticos ou ambas opções. A menina parecia ser mais acessível então me dirigi a ela e perguntei se ela falava inglês, para o meu desespero não! mesmo assim tentei mostrar pra ela para onde precisava ir e o horário do trem, ela entendeu minha preocupação e fez sinal que não poderia ajudar, como se dissesse: "É isso, você vai ter que esperar aqui até esse horário, não há nada a ser feito".

Meu irmão também pode ler a expressão facial dela e juntos tentamos ver se havia internet no local, algum meio de tentar sair dali, até mesmo um hotel para passar a noite mas, mais uma vez, parecia que só havia nós e aquela estação. Naquele momento me senti como se fosse um astronauta, preso em um planeta ou estação espacial alienígena, sem qualquer forma de comunicação com alguém ou algo que pudesse me ajudar. Não havia nada a ser feito teríamos que buscar meios de nos abrigar e conseguir esperar pelo trem sem perder a ponta dos dedos e do nariz para o frio (exagero eu sei, mas foi o que senti, não me julguem se estivessem lá pensariam a mesma coisa).

Após alguns minutos a menina com quem eu havia tentado me comunicar voltou com seu celular em mãos, me mostrando que havia um trem que passaria dali meia hora em direção a Mönchengladbach e de lá eu poderia pegar um trem para Düsseldorf, nossa penúltima parada antes de Berlin, eu agradeci ela imensamente pela informação, peguei uma caneta na minha mochila e anotei na passagem os horários e as paradas (SEMPRE LEVEM UMA CANETA E UM PAPEL NA MOCHILA). Infelizmente ela e o outro rapaz embarcaram no trem que passou logo em seguida, deixando eu e meu irmão com o bêbado e o alucinado.

Se houver erro de ortografia ignorem.

O tempo se arrastou, esperamos por cerca de 40 minutos e o trem veio fora do horário previsto, não sabíamos se aquele era exatamente o trem que iria para Mönchen…, resolvemos arriscar que sim e entramos no vagão que parou a nossa frente. Nele havia um grupo de adolescentes que felizmente falavam em inglês, então perguntei se aquele trem iria para a cidade mencionada e eles me responderam que sim, contudo, me informaram que aquele trem se partia em dois e que uma parte iria pra onde eu pretendia e a outra para uma outra cidade que não faço noção de qual seja, mas que achavam que eu estava no vagão certo. Quando ele me disse isso pude ver dúvida em seus olhos, mas me sentei e esperei.

Ja passavam das 23:00 e a viagem seguia tranquila, naquele vagão só havia eu, meu irmão e o grupo de 04 de adolescentes, até que que chegou o momento deles descerem e pude ver mais uma vez o rapaz que havia nos informado o itinerário nos observando com dúvida (provavelmente se questionando se havia nos informado corretamente). Não, ele não havia, após mais 15 minutos de viagem paramos em uma estação e o sistema de aviso do trem desandou a falar um monte de coisas em alemão e então deduzimo que aquele era o momento que o vagões iriam se dividir e passamos a ficar atento a qualquer movimentação que pudesse nos dizer algo.

Após alguns minutos entrou um homem trajando o uniforme da Cia. de trem da Alemanha (DB), chamei ele e perguntei da cidade de Mönchengladbach ele arregalou os olhos e começou gritar em inglês que eu havia entrado no vagão errado, que eu estava no vagão 02 e eu deveria estar no vagão 01, começou a gritar para eu correr pois o trem estava para partir. Naquele momento eu e meu irmão nos levantamos com todas as nossas coisas e partimos em direção a porta e saímos do trem e corremos por toda a extensão da plataforma até um ponto em que achamos que era suficiente e que provavelmente era o vagão certo. Entramos nele e no mesmo segundo o trem começou a se mover.

Meu ** ainda estava na mão, consultei a única pessoa no vagão a respeito do destino e ele me confirmou, alívio pela primeira vez desde Heerlen.

Assim a viagem se seguiu, cansativa e madrugada adentro, mas tranquila e com uma certa folga para descansar. Trocamos de estação mais uma vez e finalmente entramos em um trem que iria nos levar para Düsseldorf, local que eu presumia ter uma estação maior, com banheiros e mesas para sentar.

Foi nesse trajeto que pela primeira vez passou alguém conferindo nossos tickets, ao notar que iríamos para berlim o fiscal deu uma risada e nos desejou boa sorte, mas naquela altura já sabíamos que ainda nos restava uma longa noite pela frente.

Descemos do trem em Düsseldorf e já fomos procurando um local aberto para podermos passar a madrugada, ou parte dela ao menos, os corredores eram frios e precisávamos de um local fechado. Nosso trem só sairia dali quatro horas então havia um tempo de espera pela frente. Foi quando nos deparamos com uma loja do McDonald's, a única aberta naquele horário. Então entramos e escolhemos um lugar para sentar.

Continua…