A Jornada da Autoaceitação — Parte 1: Deixando de ser uma pessoa feia

Lembro quando eu fui chamado de feio pela primeira vez.

Na verdade, a ofensa não foi bem para mim. Um amigo só havia comentado como éramos todos feios, pois ele achava os homens naturalmente horríveis.

Ainda assim aquilo tinha doído em mim. Uma bobagem, mas que acabou gerando uma nova consciência na minha cabeça. “Será que eu sou feio?”.

Nasce a dúvida e a dúvida se torna crença. Cresci me considerando feio. O simples fato de você não ser a pessoa mais popular da escola já diz isso. Alguns poucos são bonitos e o resto são apenas tosquinhos medianos.

Mas o pior sempre fica para as mulheres.

Nós, homens, aceitamos muito melhor a nossa feiura. Até preferimos ser grotescos, barbudos e desarrumados. Dificilmente vamos acordar mal porque nos achamos feios.

Já as mulheres estão sempre gordas ou magras demais. Nada nunca está certo.

E eu não tenho solução alguma. De verdade. A única coisa que posso compartilhar é a minha visão e como isso me ajudou na superação destes complexos.


Tudo começa com a sua negação

Primeiramente, beleza existe sim. Não é apenas uma invenção ou convenção.

De 91 pessoas que sofrem de complexo de feiura, pelo menos 78 possuem uma série de crenças limitantes sobre o assunto:

  • Beleza não existe, ela é relativa.
  • É tudo culpa da ditadura da beleza.
  • Eu não acho que os padrões de beleza sejam para mim.
  • Eu não tenho um biotipo belo.

Reparou no que está acontecendo aqui? Quando colocamos estas questões lado a lado, fica claro o seguinte: a negação impera.

E quando falamos de negação, estamos lidando com um mecanismo de defesa do nosso Ego, que tenta desconstruir e negar a Realidade ao invés de se responsabilizar pelas mudanças necessárias.

Estou tentando não ser rude, mas, em resumo, quero dizer que a culpa é toda sua.

Pode doer e você pode achar isso um absurdo, mas vamos desconstruir melhor esse pensamento. Hoje você verá como se empoderar para quebrar a sua síndrome do patinho-feio, mas é preciso entender que tudo depende de você.

Deixar de jogar a responsabilidade para os outros é sempre o primeiro passo.


Você se acha feio(a) porque não cumpre sua própria definição de beleza

Se você nunca parou para se perguntar isso, eis o momento.

Afinal, oque é a beleza? O que define algo que consideramos belo?

A maioria das pessoas tende a responder essas questões com artificialidades implantadas pelo fator social. “Beleza não existe, ela é relativa ou ditada”. Eu discordo.

Para pensar em beleza, você deve pensar através do seu próprio ponto de vista. O que mais te agrada esteticamente? O que está por trás do que você acha belo?

Toda beleza nos dá uma experiência perceptual de prazer e bem-estar emocional. É aquela coisa que nos encanta e dificilmente sabemos o porquê.

Isso é relativo? Apenas até certo ponto.

Mas como um estudioso dos desejos e da misteriosa máquina humana, eu tenho algumas teorias.


Para mim, beleza se resume a sinceridade.

E quando digo sinceridade, estou me referindo a capacidade de ser transparente na expressão da sua própria individualidade.

A aparência é um mediador entre a nossa alma e as outras pessoas. De nada vale ser belo por dentro se a expressão da sua beleza é descuidada.

Ainda que cada pessoa sinta prazer com atributos diferentes, a verdade é que ninguém sente prazer pela artificialidade.

Para mim, a beleza se resume aos olhos brilhantes, o sorriso solto e uma atitude natural. Quando dizem que a maior beleza é ser você mesmo, não é uma mentira.

E é aqui que confiança e sinceridade se encontram.

Lembro bem de quando fui comprar meu primeiro óculos. Eu tinha 11 anos e mudar de aparência era o fim do mundo. Não bastava ser japonês, agora eu seria o completo nerd de óculos. Claro que comprei o óculos mais discreto o possível.

Anos depois percebi como aquela foi uma péssima escolha. Tentar ser discreto é como pendurar uma melancia no seu pescoço. Temos um olfato para a fraqueza alheia e aquele óculos só expressava a minha insegurança. Era como se eu transpirasse ridiculosidade.

Eu até tentei usar lentes de contato, mas foi péssimo. Um dia desses acabei passando pimenta no meu olho, sem querer.

Irônico como eu tinha fetiche por mulheres de óculos, mas achava que ficaria feio com um. A maioria das pessoas passa por uma mentalidade similar. Elas acham lindas as pessoas de corpo definido, mas acabam pensando que “isso não é para mim”. Eis outra crença limitante comum.

Tudo mudou quando eu finalmente aceitei que era um cara nerd de óculos e não havia problema algum com isso. Agora, ao invés de usar um óculos discreto, tentei seguir o que eu achava bonito. Comprei uma armação gigante antes da moda estourar e resolvi ser um cara diferente. As pessoas gostaram, eu gostei. Ponto para a expressão sincera e confiante.


Preocupar-se com a sua aparência é um ato de autorrespeito

Quando eu me achava feio, eu vestia qualquer coisa. Até os 20 anos, eu nunca tinha ido comprar roupas para mim e usava o que estava no armário.

Eu achava uma perda de tempo ficar me preocupando em como definir o meu estilo.

É uma forma de autoproteção que criamos. “Já que sou feio, vou me esforçar para ser mais feio ainda e ter uma boa desculpa”. Eliminamos a dor da derrota quando não tentamos ganhar o jogo. E isso é falso, desonroso e deprimente.

Então um dia eu simplesmente decidi que queria me sentir melhor quanto a minha aparência. Eu tinha desistido de ser feio.

Ao mudar a minha mentalidade, acabei percebendo que aquilo que você veste não nutre apenas seu prazer pelo consumo.

É necessário se esforçar para encontrar algo que te expresse melhor. O seu estilo importa e, quando você se preocupa com isso (de forma equilibrada, não fútil), você está sendo mais sincero e expressando melhor a sua essência.

E não estou falando apenas de roupas. Estou falando da expressão pessoal através da sua aparência.

Não é difícil de encontrar uma mulher na rua usando uma roupa que não tem nada a ver com ela. Estamos nos esforçando para expressar melhor o nosso biotipo? Ou será que estamos apenas seguindo tendências para nos adaptar ao mundo?

A questão não é consumir ou comprar coisas caras. A questão é se preocupar em como utilizar melhor as suas qualidades físicas, seja com roupas, barba, cabelo ou postura. E tudo começa com uma simples decisão: encontrar a sua beleza pessoal.


As normas estéticas importam sim

Em 2015 fui em uma palestra sobre Estilo para Homens com o Bruno Passos lá no Papo de Homem. Alias, recomendo essa leitura.

Aquilo foi o tapa na cara que eu precisava para quebrar meus estigmas sobre moda e beleza.

Acontece que, assim como a maioria das pessoas, eu achava que tudo se resumia a sorte e dinheiro. Ou você nasce bonito, ou você compra a sua beleza. O resto que se dane.

Mas ali, eu percebia que existia uma grande complexidade teórica por trás do que eu considerava como apenas fútil.

Não é que algumas pessoas tinham um biotipo belo. A verdade é que elas aprenderam a utilizar muito bem seus rostos e corpos em combinação com a sua individualidade e roupas.

E para mim, a grande questão foi aceitar isso. Eu estava sendo feio, tanto por não me expressar bem, como por desrespeitar a importância destas normas.

Não era culpa de ditadura alguma, nem do dinheiro ou do terrível mundo.

  • Eu era feio porque a minha postura era torta. Ao invés de eu mudar isso, eu apenas a aceitava como um biotipo infeliz.
  • Eu era feio porque não sabia falar bem e era tímido. Ao invés de mudar isso, eu me aceitava como introvertido.
  • Eu era feio porque meu cabelo e barba não condiziam com o meu rosto. Ao invés de mudar isso, eu tentava me “aceitar como eu era”.

E veja como a responsabilização faz a diferença.

  • Eu comecei a praticar artes marciais para para corrigir a minha postura e hoje, quando me olho no espelho, não vejo mais o Sméagol.
  • Eu comecei a gravar vídeos e treinei a minha comunicação escrita e falada. Isso iniciou um processo de destravamento emocional incrível, que rende até outro post.
  • Eu deixei meu cabelo crescer porque eu sentia que era melhor dessa forma. O próprio Bruno Passos me deu uma consultoria de estilo para mudar a minha barba. Eu fui atrás da mudança. Eu parei de aceitar o que eu era, pois eu nunca serei a minha aparência.

E não é que hoje eu seja um deus grego. Bem longe disso. Embora ainda exista muito a melhorar, eu nunca mais sofri com isso.

Na verdade, o que mudou foi somente a responsabilização. Eu me sentia melhor porque nada mais dependia dos outros. Opiniões e escolhas eram apenas minhas.

Não sei o quanto que a minha experiência pessoal pode te ajudar, mas espero que muito disso seja adaptável para a sua situação.

E como eu já falei demais, vou finalizar esse texto.

Abraço, valeu!

Embora seja um assunto estranho para nós, acho essencial a discussão. Se você gostou, peço que deixe a sua curtida ❤ e comente a sua experiência pessoal! Obrigado pela leitura e nos vemos amanhã.


Texto difícil de sair — 21/08/2016

Eu nunca pensei que fosse escrever sobre estilo ou algo parecido. Interessante.

Mas mais interessante que isso é a quantidade de material e ideias que foram surgindo no caminho. Vou acabar estendendo o assunto para mais tarde, caso demonstrem interesse.

Depois de quase 10 horas, é isso aí.