
As Travas Invisíveis da Nossa Psique — Quando você deixa de ser você sem ao menos perceber
Ontem, enquanto estava cagando, percebi algo notavelmente triste. Eu não conhecia nada sobre os problemas e medos dos meus melhores amigos.
E, ainda que eu soubesse algo, provavelmente só conhecia a camada mais externa e superficial da questão.
Talvez você deva ter achado isso bem estranho. Não o fato de eu perceber a desconexão entre pessoas teoricamente próximas. Mas por que diabos eu pensei sobre isso enquanto defecava, ou pior, por que eu tive que contar isso logo no primeiro parágrafo do meu relato.
Embora pareça desconexo, e você ainda deve estar confuso, ambos os temas se misturam alquimicamente na problemática das nossas travas pessoais.
Temos a tendência de esconder os nossos problemas pelo mesmo motivo que escondemos as nossas intimidades.
Todas as pessoas fazem o número 2. Alguns mais e outros menos (recomendo Actívia). Da mesma forma, todos temos um lado obscuro da nossa personalidade.
Nós mostramos o que convém e escondemos as nossas vergonhas com folhas de bananeira.
Você já parou para pensar que está vivendo e expressando apenas 10% da sua essência?
Ser ou não ser? Eis a questão.
Há alguns meses, uma amiga minha me disse: “Ryo, você é um mistério. Eu não sei o que você faz da vida, eu não sei da sua vida amorosa, eu não sei de nada sobre você”.
Aquilo foi um baque terrível para mim. Como alguém que escreve todos os dias não consegue expressar a sua própria essência?
Só que até o então, eu só havia expressado algumas ideias bonitas de forma despersonificada. Eu estava mostrando o meu lado mais belo, enquanto escondia as deformidades.
Mas a questão não era somente aquilo que eu expressava para os outros. Era um problema de aceitação interna que todos nós temos.
Você só se torna uma pessoa boa quando percebe o mal dentro de si. E vou te contar um segredo: todos nós temos um pouco de podridão desse mundo.
Existem diversas causas para esse comportamento. Eu acredito que o mais evidente seja a nossa necessidade por alimentar o Ego. Queremos reforçar a nossa identidade através da restrição daquilo que somos.
Se o outro me irrita, eu não posso ser como o outro. Esse é o primeiro pensamento.
Então removo de mim estas características e começo a construir uma barragem que impede o indesejável. Começo a acreditar que não sinto raiva, inveja e rancor.
Por outro lado, começo a me espelhar na sociedade para evitar a síndrome de patinho feio. Gosto do que gostam, penso como pensam e amo como amam.
E embora a maioria das pessoas negue, esses bloqueios acontecem de forma tão automática e subconsciente que sequer percebemos.
Quando foi a última vez que você foi bobo? Quando foi a última vez que você se deixou errar? Quando foi a última vez que você sentiu raiva de si?
Nós não somos as nossas vitórias. Somos um emaranhado de derrotas, problemas, mau gosto e muitas lágrimas.
E, se você perceber, todas as grandes histórias são construídas dessa forma.
Tudo começa com um personagem inútil que é convocado para uma jornada. Então ele percebe que o mundo é muito maior do que ele conhecia. Sua imagem ilusória de si se expande e ele começa a entrar em contato com um problema.
O mundo (ele mesmo) está um caos. Existem vilões que precisam ser enfrentados, mas ele não é o suficiente. Acontece uma transformação e o herói fica de frente com seu maior inimigo.
Se a história for bem feita, o vilão não é simplesmente derrotado. Você descobre que ele é também é humano, que possuía sonhos e valores assim como você. Talvez ele até seja o seu pai — aquele que te deu origem.
Boas histórias não são óbvias. Você deve encontrar seu próprio caminho. Sair dos padrões, quebrar regras e se reinventar completamente.
Para mim, tudo mudou quando parei de pensar sobre o que eu deveria ou não escrever. Alguém vai ler isso? Vão ficar ofendidos? Estou sendo estranho?
Então eu abracei tudo aquilo que eu nunca leria por aí. Ao invés de escrever como eu sou legal por ser contra o machismo, que tal contar sobre o machismo que está enraizado em mim?
Todas as pessoas vestem máscaras de luz, mas é a nossa sombra que nos conecta. É me colocando como um mero ser humano falho que consigo gerar empatia e me ligar verdadeiramente com as outras pessoas.
Então agora você sabe. Se você leu até agora, provavelmente foi porque você também caga. É isso que nos manteve conectado até aqui e essa é a coisa mais estranha que você vai ler nesse dia.
Texto do dia inteiro — 11/08/2016
Eita texto difícil de escrever. Poderia escrever um livro sobre a questão do Ego e de como negamos grande parte do que somos.
Definitivamente esse foi meu post mais estranho. Mas a vida é isso aí. Experiência.
Recomendo tentar expressar as suas bobagens. Tente não querer estar certo. Não querer convencer ninguém. Tente não ser culto. Expresse um diálogo interno que você teve durante o seu dia.
Você não precisa ser legal. Você precisa ser verdadeiro. É disso que sentimos falta por aí. Deixe o amor de lado. Fale do dia que você ficou gripado ou de como você odeia sorvete de milho verde. Só não conte o dia que estava cagando. Isso seria deselegante demais.