Cultura Japonesa #1 — Silêncio, Haiku e a Contemplação

Como descendente de japonês, por toda a minha vida eu me senti como um pokémon em terras estranhas.

Parece que o brasileiro fica meio besta quando vê um oriental. Chama de xinguiling, puxa os olhos e começa a falar “arigatô”. Esse inferno perdurou por uns 18 anos.

Mas fora a ignorância alheia e as infantilidades, sempre notei que as pessoas encaram a cultura japonesa com um misto de respeito e curiosidade.

Em geral, somos uns bichos meio quietos e frios e pouca gente sabe o que está por trás disso.

Nesta série de intercâmbio vamos falar mais sobre a cultural tradicional japonesa e o que está por trás dela.

Mas antes disso, peço que retire os seus sapatos. Obrigado.


Por que os japoneses são tão quietos?

Esses dias eu decidi aprender um pouco de Haiku, a poesia tradicional japonesa.

Meu encanto foi proporcional ao meu estranhamento. Estamos acostumados a ler e falar tanto que o Haiku parece terminar antes de mesmo começar.

Ninguém viaja
por este caminho se não eu,
Nesta tarde de outono.
- Matsuo Bashō

Como ocidentais, nós esperamos que tudo seja dito em minúcias. Gostamos de expressar pensamentos e sentimentos através de palavras e gestos. Queremos falar mais do que ouvir.

Isso dificulta a compreensão da contemplação oriental que é tão baseada no vazio.

O MU, ou o espaço negativo é um conceito que foi herdado do Zen Budismo e que teve grande influência no Japão. Você já deve ter percebido, mas as casas tradicionais eram basicamente ambientes vazios. Tudo foi concebido de forma funcional para economizar recursos e manter a simplicidade das coisas.

O Japão não era um país rico e abundante. Culturalmente falando, toda a excelência do país foi baseada na otimização de recursos. Mesmo os samurais eram treinados para eliminar seus oponentes com apenas um golpe e o mínimo de movimento necessário.

O tempo era tão precioso que foi preciso aprender a expressar mais com menos. A comunicação muita vezes é feita através do olhar.

Se achamos que os detalhes ajudam na riqueza da informação, o povo japonês pensa o contrário.

Ao falar demais, estamos limitando toda a Verdade.

O vazio nos dá a oportunidade de preenchê-lo em nosso imaginário. Não apenas sentimos as intenções do autor, como podemos adicionar as cores da nossa própria experiência.

Voltando para o Haiku citado, quais as sensações que despertam em você?

Cores alaranjadas de folhas caindo. Uma estrada vazia e um viajante solitário. De onde vem e para onde vai? A imagem vai se formando com um sentimento de leve amargor. Um samurai arrependido?

Sentimos que é um momento de reflexão. Você e apenas você pode passar pela tarde de outono, quando as folhas caem e as árvores secam. Talvez o autor estivesse passando por dificuldades, sentindo que não poderia contar com ninguém além dele próprio.

Ou talvez isto seja apenas um reflexo subconsciente do meu estado atual.

Essa é a mágica.

Ao calar a sua boca, você contempla a sua alma.

(E sim. Japoneses são meio grossos as vezes. Vamos falar disso no próximo bate-papo)


Texto da Madrugada do dia 22/09/2016

Lembro que quando eu era criança, tinha um amigo da casa da frente e meu pai sempre reclamava: “Esse seu amigo fala muito e ainda grita”.

Na época eu só achava que ele era um pouco rabugento, mas treinar uma arte marcial tradicional japonesa me fez entender muito mais sobre a nossa cultura.

As coisas precisam ser práticas. Você fala apenas o que é necessário. Temos dois ouvidos e apenas uma boca por algum motivo.

Mas a questão não é falar demais ou de menos. É preciso saber falar quando for necessário. Não ser chato e nem tímido. Geralmente vemos apenas os extremos, mas o ideal é buscar o equilíbrio.

Quando você está em guerra, não existe tempo para frivolidades. O Japão estava sempre em guerra.

O que você gostaria de conhecer sobre a cultura japonesa que te intriga? Deixe nos comentários a sua sugestão!