
Era apenas uma criança, mas mudou a minha vida
Era um dia como hoje, só que há alguns anos.
Eu tinha acabado de sentar para almoçar como de costume, até que me surge um menino desses, que eu sempre via pedindo dinheiro no farol. Devia ter seus seis anos.
Ele entra no restaurante e vai indo de mesa em mesa falando algo.
“Tio, cê pode me dá umas moedas pra eu comer?”.
As pessoas de bem, trabalhadoras e com suas roupas sociais olhavam com desdém. “Desculpa, não tenho nada”.
Eu sentia que elas estavam incomodadas. Talvez por ele ser pobre, talvez por ser a sua hora sagrada de almoço. Porém incomodado mesmo estava eu.
Não vou mentir, mas eu não costumo dar dinheiro pra ninguém. Só que naquele momento eu queria provocar aquelas pessoas.
“Vem cá”, chamei o menino. “Senta aí e pode escolher o que você quer comer. Eu pago”.
A reação das pessoas foi impagável porque ninguém esperava por aquilo.
Já o menino se sentou como se não fosse nada demais. Ele não ficou super feliz e nem muito surpreso. Imagino que tivesse sido a primeira vez que alguém o chamava para almoçar assim, mas ele não achava nem estranho.
Estranho era o que achavam as pessoas ao nosso redor. Somos condicionados pela sociedade de tal forma que nos surpreendemos demais com o inesperado. Estavam todos curiosos com o que se passava ali.
“Quero esse Bife à Parmegiana”, o menino disse enquanto olhava para o cardápio. “Vem bastante queijo? Eu gosto de queijo!”.
O garçon sorriu. A criança de rua não era mais uma criança de rua. Havia perdido seu título e se tornado apenas criança, na qual todos poderiam apreciar como um ser humano propriamente dito.
A estranhez das pessoas ao nosso redor começou a se transformar em uma espécie de vergonha. Todo mundo havia ignorado uma criança precisando de ajuda. Ela não queria dinheiro para comprar drogas ou sustentar os pais. Ela queria apenas comer.
Tamanho foi a influência que, em menos de cinco minutos, um senhor ao meu lado havia comprado uma marmita para outra criança levar. As pessoas agora estavam sorrindo.
Aquele horário de almoço sagradamente medíocre havia se tornado um exercício de humanidade.
Ficamos conversando enquanto almoçávamos.
Perguntei do que ele tinha medo nessa vida imaginando algo muito complexo, mas ele respondeu que tinha medo de aranha. Eu ri. Não sei porque, mas isso foi a coisa que mais me marcou.
Ele realmente era apenas uma criança.
Quando acabamos, seu prato ainda estava na metade e me perguntou se tinha como levar pro irmão dele. “Hoje é aniversário do meu irmão, sabia? Consegui um dinheiro aqui e vou comprar um brinquedo pra ele”.
O garçom trouxe a marmita do menino, que se levantou e foi embora para encontrar o irmãozinho.
Não agradeceu e nem precisava.
Fui pagar a conta e o caixa sorriu e disse: “Pode deixar que é por conta da casa. Muito obrigado viu!”.
No fim das contas, a gente queria mesmo era agradecer ao menino.
Texto Matinal 16/09/2016
Eu acho que as pessoas se perdem um pouco na ideia de ajudar aos outros.
Temos duas necessidades vaidosas. Queremos estar certos e queremos ser bons. São duas percepções que mais nos cegam do que iluminam.
Será que estou ajudando alguém dando esmola? Ou será que só quero alimentar meu próprio Ego?
Afinal, o dinheiro não é meu. Eu não estou doando nada. Eu não estou salvando ninguém. Eu não sou um herói.
Naquele dia eu sequer quis ajudar o menino. Eu queria mostrar algo para as pessoas, o que também pode ser considerado vaidade. Eu estou certo e eles não? Acho que também não foi bem isso. Ignorar o menino não é maldade alguma.
Só que as vezes precisamos ser chacoalhados da nossa realidade.
No fim das contas, eu fiz porque eu sabia que ia gostar da experiência. No dia seguinte, ninguém vai agir diferente. Crianças serão ignoradas.
Mas tendo uma visão diferente e um impulso pela ação, deixar de agir seria privar o mundo do que eu tenho a oferecer.